Lisboa – Parte 1

Ao final do primeiro mês que passei no Velho Mundo, escrevi um pequeno texto contando o que tinha passado naqueles dias. Seis meses já se passaram desde que eu saí do Brasil com a única perspectiva de ver o que acontecia.

Lisboa

Até então eu já tinha um lugar onde morar, algumas pequenas viagens agendadas e uma dezena de entrevistas de emprego em processo.

A Primeira casa

Era um apartamento habitado por 6 pessoas ocupando todo o primeiro andar de um prédio em Estefânia, um bairro perto de Saldanha, na região central de Lisboa. O apartamento era alugado por um francês chamado Hugo, que alugava-o todo e depois sub-alugava os quartos.

Geralmente toda semana tinha alguém dormindo por ali – incluindo na única vez que uns amigos de Braga vieram para Lisboa para ver um show do FatBoy Slim em maio. Eu tinha avisado que viria gente e iria usar os colchões da sala, mas mesmo assim, quando chegamos em casa, às 6h da manhã, já havia gente lá dormindo. Lá fui eu dormir no meu saco de dormir, depois de preparar um delicioso omelete de sardinhas com arroz às 6h30 da manhã.

Além de Hugo, duas outras pessoas estiveram lá morando integralmente durante toda minha estadia: Julien, um outro francês que ocupava o quarto em frente ao meu. Apesar do estilo metaleiro, ouvindo música pesada, portando longa barba e longos cabelos, o cara era surpreendentemente vegetariano. Ao menos ele nunca chegou a nos incomodar com o assunto, sendo que o único problema nisso residia no fato de nossa geladeira estar constantemente cheia de mato, sem sobrar muito lugar para guardar a cervejinha. Julien também viajava constantemente para França, pois além de estudar biologia, trabalhava na organização de festivais de música. Foi só nas últimas semanas que fiquei realmente amigão dele, saindo para beber e indo em alguns lugares onde tocava um rock mais pesado.

Durante todo o tempo por lá também esteve a polonesa Roxxane, que como toda garota linda, tinha uma capacidade invejável de me ignorar. Sinceramente, eu também achava que ela tinha de chata o que tinha de gostosa – e ela saindo do banho com a toalha enrolada no corpo era chatíssima…

A outra polonesa era mais divertida: Marta entrou no lugar da italiana Giulia – que nasceu exatamente no mesmo dia que eu. Infelizmente, algo trágico deve ter acontecido com a família de Marta que a obrigou a voltar de repente para a Polônia, se ausentando até de nossa viagem pela Ilha da Madeira que ela já havia pago.

O quarto onde vivia uma alemã chamada Sophie, foi ocupado nos últimos meses por uma espanhola de Sevilla. Ela era até simpática e algumas vezes dividíamos o jantar (macarrão quando ela cozinhava e arroz com atum quando o cheff era eu). Mas a evidência que ela decididamente não era uma amiga próxima é que eu não lembro do seu nome.

Arroz com omelete de sardinha às 6h da manhã.

Arroz com omelete de sardinha às 6h da manhã. (Na companhia da Karla e do Luis)

Trabalho

Desde algumas semanas antes de embarcar eu vinha procurando um emprego em Lisboa. Minha idéia era procurar algo na área de programação mas, se não encontrasse nada, estaria disposto a trabalhar em qualquer coisa – e ainda estou, na verdade.

No primeiro mês aqui, iniciei diversos processos seletivos em várias empresas – prova que o mercado tecnológico e de programação segue crescendo, quase alheio à qualquer crise. Mesmo assim, os salários não eram condizentes com os cargos oferecidos e as empresas demoravam muito nas respostas.

Consegui um emprego numa pequena empresa de Lisboa responsável por controlar um sistema de pagamentos online – o que eu tinha que fazer era dar suporte à ferramenta e ajudar os usuários com as implementações externas. Era tudo muito básico: Um sistema simples de PHP, já funcionando, só tendo que fazer alguns projetos e alterações em cima. Mas era um emprego tranqüilo e que me oferecia um dinheiro pra me manter (e ainda sobrava um pouco), além de uma flexibilidade que me permitiu fazer algumas viagens.

Mesmo assim não era propriamente um emprego que eu gostava. Não pelos divertidos companheiros de trabalho ou pelo ambiente tranqüilo, mas por ser muito básico, eu não tinha algo que sempre tive nos meus outros trabalhos e que sempre foi minha grande motivação: o desafio. Viver na Europa, conhecendo novas pessoas e tentando me sustentar, entretanto, já era desafio o suficiente, então o trabalho serviu mesmo só como forma de sustento.

Alimentação

Come-se muito bem em Portugal. Meus pais são de origem portuguesa (papai é português e mamãe é filha de portugueses), então sempre partilhei à mesa diversos pratos da culinária lusitana, logo, sempre soube que adaptar-me à comida daqui não seria um problema.

Depois que eu comecei a ganhar dinheiro suficiente para não viver somente do café-da-manhã (aqui conhecido como pequeno-almoço), pude começar a apreciar a culinária local e desfrutar de todos os tipos de bacalhau possíveis. Ajudou em minha alimentação o fato de Portugal ser um país bem barato de se viver – em média eu não gastava mais do que 5€ comendo em restaurantes perto do trabalho; se eu quisesse comer algo mais requintado e gastar mais dinheiro, acabava gastando no máximo 10€ ou 12€ – com vinho incluso!

Eu costumava almoçar num hospício em frente ao meu trabalho. O local tinha um restaurante chamado “Psico Prato”, que funcionava como um centro de reintegração dos loucos na sociedade e, por isso, servia a comida com um preço abaixo da média – o prato do dia por lá custava por volta de €3,80. A comida era boa e barata. E, respondendo à minha mãe: Eles não servem só loucos. Nos dias úteis, porém, eu costumava fazer um sanduíche para comer no trabalho e tomar um bom café da manhã (costumeiramente, na padaria do supermercado).

Aprendi realmente a cozinhar. Finalmente aprendi a fazer arroz de verdade – geralmente misturado com atum e champignons. Alheira é outra especialidade portuguesa que pude desfrutar com freqüência por aqui. Eu já tinha experiência no omelete de queijo (só não ganhei um concurso de omeletes de queijo que fiz com meus amigos no Brasil porque a minha receita foi desclassificada por não levar ovos), então era também uma iguaria que eu comia constantemente. Morei com franceses, então também aprendi a fazer crepes. Mas, mesmo com um strogonoff ou uma receita mais rebuscada de vez em quando, minha preguiça me levava a omeletes com pão e lasanhas de microondas. E meia garrafa de vinho por dia, que ouvi dizer que faz bem pro coração.

O vinho em Portugal é bom e ridiculamente barato. Até os mendigos andam pelas ruas bebendo vinhos bons. Por 2,00€ é possível comprar um vinho descente, que custaria no mínimo cerca de R$20 no Brasil.

Pastéis de Belém

Doces portugueses...

A vida portuguesa

Lisboa se mostrou uma cidade estupidamente deliciosa de se viver. Ela é consideravelmente mais quente que o resto da Europa, é uma belíssima cidade, com um gigantesco patrimônio histórico e muito fácil de se gostar.

Uma das coisas divertidas de morar na Europa é o contexto histórico dos lugares. Não só Lisboa, mas grande parte da Europa passa essa deliciosa sensação de velho. Como um apaixonado por história, eu acho divertidíssimo ver uma infinidade de construções seculares, imaginar que tipo de pessoas habitaram aquelas casa, que tipo de pedestres caminharam por aquelas praças seculares, como algumas ruas devem ter sido tomadas por batalhas ou imaginar que aquele penico era onde cagava Dom João VI.

Lisboa parece pequena, não tendo nem um milhão de habitantes (especialmente se comparada à São Paulo). Logo era realmente irritante sair 21h do trabalho e encontrar todos os mercados fechados. O que salvava era o mercadinho do indiano-clichê ali da esquina que ficava aberto até as 0h.

Por outro lado é maravilhoso viver num lugar sem trânsito. O transporte público é eficaz, com quatro linhas de metrô (todas se comunicando entre si) e ônibus e bondinho cobrindo onde o metrô não alcança. E o transporte público, assim como o resto de Portugal, era consideravelmente barato. Por 30€ por mês, era possível carregar um cartão que me permitia usar metrô, ônibus e bondinho à vontade na cidade – infinitamente.

O problema mesmo fica com os motoristas portugueses, que simplesmente não parecem se importar em parar em fila dupla (ou até tripla) ou em deixar o carro ali no meio da rua, bloqueando o trânsito, enquanto vai na pastelaria comprar uns cacetinhos.

Melhor que viver sem trânsito, entretanto, é viver sem violência. Jogar um joguinho no iPhone no ônibus (aqui chamado autocarro) ou andar pelas ruas do centro às 2h da manhã sem o habitual medo que acompanha cada brasileiro que possua um cu é uma experiência ótima.

Apesar que a malandragem brasileira é claramente uma evolução da malandragem portuguesa. Assim como tanta coisa que a terra das bananas herdou da cultura lusitana. Atualmente ocorre um caminho inverso. São os portugueses que consomem o que provém do Brasil, agregam nossa música, filmes, televisão e hábitos. O Brasil vive muito em Portugal, com uma comunidade grande e uma cultura ativa. A ligação Brasil-Portugal ainda é muito forte, mais do que no contexto histórico, talvez por uma ligação genética (ainda mais no meu caso, filho de pai português). E, pensando profundamente, são mesmo pátrias irmãs, separadas por um oceano.