Vida de caroneiro – Parte 1

Na beira da estrada, com uma mochila nas costas, uma placa na mão e um dedão levantado. Paciência, sorte e um pouco de coragem. A carona é uma arte menosprezada por aqui, mas é reconhecidamente um dos meios mais baratos (e demorados) de se viajar em lugares como Europa, Estados Unidos ou Austrália.

Em países como a Alemanha, ela é tão organizada que existem até serviços que ajudam caroneiros a se encontrar com motoristas (como o Mitfahrgelegenheit – http://www.mitfahrgelegenheit.de/). Em muitos países, porém, a carona é ilegal, o que não quer dizer que ela não exista – aonde há um mochileiro tentando viajar, há um dedo em riste na beira da estrada.

Uma placa na mão, um dedo levantado e paciência...

Uma placa na mão, um dedo levantado e paciência…

Minha primeira experiência com caronas foi inusitadamente do lado do motorista (mas do lado inglês, diga-se de passagem). Durante uma viagem à Nova Zelândia, com minha prima, alugamos um carro e saímos de Christchurch em direção ao belíssimo Lake Tekapo. Logo na saída da cidade, assim que pegamos a estrada, vimos no acostamento dois jovens estilo hippie, cabelos dignamente despenteados, roupas largas e chinelos. Tocavam violão e mantinham a seus pés uma placa indicando o destino: uma cidadezinha que, pelo que podíamos ver no mapa, ficava na região de Ashburton, meio do caminho para nós.

– Quer dar carona para eles, Rê? – perguntei à minha prima, depois de passarmos pela dupla.

– Claro! – respondeu ela.

Demos uma meia volta com o carro na estrada e retornamos para resgatar os nossos novos amigos.

– Estamos indo para o Lake Tekapo. Podemos lhe deixar em Ashburton. – disse eu, quando os dois ocuparam o banco de trás do carro, dividindo espaço com suas próprias mochilas e o violão.

– Vocês vão para Lake Tekapo? Então vamos lá com vocês! – disseram eles.

Os dois jovens hippies eram australianos, que estavam entrando em reta final de uma viagem de mais de seis meses pela Nova Zelândia. Haviam comprado uma camper van com a qual fizeram a maior parte da viagem, mas que havia quebrado há algumas semanas e estava no conserto em Wanaka, ainda a Sul de Lake Tekapo.

Chegamos no belíssimo lago, fizemos nosso habitual turismo, tiramos fotos para humilhar nossos amigos e até recebemos informações turísticas dos dois australianos que já conheciam bem aquela parte da ilha sul da Terra Média.

– Há um outro lago tão lindo quanto um pouco a norte daqui; o Lake Pukaki. Vocês não querem ir ver? – perguntaram eles, enquanto terminávamos de comer qualquer coisa comprada em um mercadinho ali na beira do lago.

– Vocês sabem o caminho? – perguntei eu, ignorando o fato de que nosso carro tinha um GPS ao qual demos o nome de “Almerinda”.

– Sabemos.

– Então vamos!

Foi assim que, no final, passamos o dia todo viajando com os dois autralianos. Por fim, eles decidiram vir conosco a Wanaka (340 km além do ponto aonde eles almejavam chegar naquele dia), para conferir a situação do carro deles. Já nós chegamos mais tarde do que previsto na cidade; mas, ao encontrarmos aquela lindíssima cidade encrustrada na montanha, decidimos que passaríamos a noite por ali.

Nos despedimos de nossos colegas caroneiros. No dia seguinte, partiríamos cedo para Te Anau. Cinco dias depois, porém na noite de Halloween, voltaríamos a encontrar ambos, na cidade de Queenstown. A cidade toda, composta basicamente de mochileiros viajando por aí, fervilhava de jovens com fantasias improvisadas. Encontramos primeiramente só um deles, fantasiado de Rambo, com uma roupa meio militar, faixa na cabeça e um fuzil de papelão. O outro estava também em algum lugar da cidade, fantasiado de Jesus Cristo: aproveitando a barba e os longos cabelos, ele fez um furo no lençol do hostel, encaixou-o pela cabeça e usava de toga. “Se vocês virem Jesus Cristo por aí, avisem que o Rambo está procurando por ele”, nos disse, quando saímos para comer alguma coisa com a promessa de nos reencontrarmos naquela noite para bebermos ainda mais. Reencontramos eles em companhia de outros amigos mexicanos, o que me foi extremamente conveniente, já que os mexicanos deviam ser os únicos da cidade que reconheceriam minha fantasia improvisada de Seu Madruga ~ “Don Ramón!”, gritaram eles em êxtase.

Depois daquela noite, nunca mais nos encontramos e nem trocamos facebook ou qualquer perfil de rede social que fosse moda no longínquo ano de 2009.

Seu Madruga, minha prima, Rambo e Jesus Cristo.

Seu Madruga, minha prima, Rambo e Jesus Cristo.

O outro lado do espírito caroneiro, porém, eu só ia conhecer mais de dois anos depois, com a esperança de ter acumulado algum karma na Nova Zelândia para que não tivesse tanta dificuldade na beira da estrada.

 

+ MAIS +

Caroneiros: Quem são? Como vivem? Como pegam carona? Para onde vão? Você vai conhecer um pouco mais dessa inusitada espécie. Fomos até seu habitat natural acompanhar esses seres de pertinho e você vai acompanhar essa aventura incrível sexta-feira, no Globo Repórter aqui.

  • Raquel Linhares

    No final do ano passado, ao passar por Campinas para ir à praia, havia diversos jovens com plaquinhas de carona. Morri de vontade de dar carona pra eles, mas o dono do carro (vulgo meu namorado) não quis =(
    Essa E ser hostess de intercambistas são experiências que eu quero muito viver!

  • Pingback: Vida de caroneiro - Parte 2 - Blog do Paulo Velho()