Viagem levando a patroa

- Porque a maioria de nós não conseguirá apreciar o texto
“Viagem levando babás” em todo o seu esplendor e utilidade.
Lembre-se que você está lá para entreter o filho mimado da patroa!

Lembre-se que você está lá para entreter o filho mimado da patroa!

Ao contrário da maioria dos maridos, nós, babás, não somos totalmente dependente das patroas. A minha irmã sempre viajou sem a patroa, até mesmo porque ficava complicado confiar aquela Louis Vitton ao sistema de bagagem da Viação Cometa.

Na minha opinião, viajar com a patroa é extremamente útil, principalmente pela mamata de ganhar passagens e usar toalhas novas de hotéis todos os dias. Se bem ensinadas, dá pra manter uma boa patroa até o filho completar uns 15 anos e começar a tomar bomba e sair com os amigos para a Vila Olímpia, época em que a mãe vai perceber que fez um péssimo trabalho educacional e demitir a babá.

Baseada na minha pequena experiência de algumas viagens com patroas, pensei em escrever este post, porque minhas amigas do salão de cabeleireiro do Doni, onde a gente se encontra todo sábado de tarde pra jogar conversa fora e assistir o Huck, sempre me perguntam como fazer, como proceder, o que pode, o que não pode, se pode comer aquela folha de hortelã que vem junto com o petit gateau e etc…

Viajndo pelas ruas de São Paulo...

Viajando pelas ruas de São Paulo…

Bom, a primeira vez que minha patroa me levou pra uma uma viagem foi pra São Paulo. O que já não é bom: a gente trabalha pra cacete pra conseguir viajar e termina em São Paulo! Não fomos nem pra Santos, que daria pra pegar um sol, se lambuzar no corrégo e rolar na areia ou comer pastel com os pés na lama. Enfim, antes disso eu nunca tinha viajado de avião e achava que esse transporte era exclusivo pra executivos, políticos e terroristas árabes. Eu delirei. Cara, eu estava sentada numa cadeira, no céu! Uma cadeira no céu! Até perguntei se tinha banheiro porque um trono seria algo muito mais monárquico, mas o banheiro dos aviões não tem aquela porcelana chinesa bonita que tem na casa da patroa. Achei melhor perguntar também se podia aceitar o lanchinho que me ofereceram e se ela ia terminar de comer a manteiguinha dela porque a minha só durou para meio pãozinho.

Ficamos em um hotel com nome de artista global, em um quarto gigantesco, que eu até achei que eram dois, mas tinha uma porta que passava de um para o outro. A patroa falou que o hotel era fino e requintado e que não era pra eu pegar nada do frigobar. Por sorte, havia uma mini-geladeira cheia de bebidas e eu nem precisei procurar o tal do bar. Ela falou também que eu não podia pedir “russervi” ou alguma coisa que eu não entendi direito, mas não foi problema porque eu sempre ficava bem caladinha pra não acabar pedindo nada acidentalmente.

Algumas vezes sua patroa vai sair pra jantar com o marido e deixar você no hotel. Quando isso acontece é porque eles devem ter ido naqueles restaurantes com mais talheres do que comida. Mas não tem problema, porque ela vai passar no Habib’s na volta ou trazer o resto que ela mandou “embrulhar pro cachorro” pra você não passar fome. Se ela te levar junto, espere as instruções antes de fazer seu pedido. A recomendação é pedir também um prato do menu infantil para você, que são mais baratos e não tem aqueles nomes em francês que provavelmente se referem a algum prato requintado, onde a comida está dentro de uma concha que tem que ser quebrada com um martelo e uma espátula de aço.

Não convém comer muito de noite. Quando eu viajava, a patroa me fazia acordar cedo para encher o bucho no café da manhã, já alertando da possibilidade de não existir almoço. Quando for assim, aproveite mesmo: A dica é levar uma sacolinha plástica e fazer três ou quatro sanduichinhos para comer no decorrer do dia. De manhã, a patroa parecia mais bem-humorada, porque sempre permitia e até incentivava que eu comesse tudo o que pudesse e até o que não pudesse.

Às vezes a viagem pode deixar você sobrecarregada. Não deixe a peteca (e nem a criança) cair!

Às vezes a viagem pode deixar você sobrecarregada. Não deixe a peteca (e nem a criança) cair!

A segunda viagem que levei minha patroa foi pro Rio de Janeiro, porque eu queria conhecer o cenário de todas as novelas das nove e esperava também ver algum artista. A patroa até me comprou algumas roupas e uma mala e disse pra eu não levar meu maiô de crochê e parar de embrulhar minhas vestimentas em um lençol porque pegava mal. Ela também reclamou que o meu shorts estava furado, mas eu não entendo: O pessoal mais rico vive comprando aquelas calças jeans que já vem completamente rasgadas, então qual o problema de um furinho?

A areia do Rio de Janeiro é menos grudenta, então a dica é aproveitar para sempre sentar na areia e ficar brincando de castelos de areia com o fedelho. Lembre-se sempre que a cadeira de praia não é para o seu bico, e tome o seu café rapidinho, sem vacilo.

Mas tudo o que eu disse vai depender da patroa. Tem patroas que só tem um lugar sobrando para viajar e acabam preferindo levar o cachorro na viagem. Mas dessas você pode se vingar dormindo com o marido dela depois.

Patroa inteligente leva a babá pra ficar segurando a criança enquanto ela tira foto

Patroa inteligente leva a babá pra ficar segurando a criança enquanto ela tira foto.

  • http://www.facebook.com/deldotore Reinaldo Del Dotore

    Lavou minha alma, após eu lter lido o asqueroso texto da repugnante madame. Parabéns.

  • Ana

    Sensacional!!!!!!!

  • Guest

    nao to conseguindo achar o texto original…. alguém tem aí?

  • Carol Prestes

    Sensacional!!! Pena que a autora do texto_referência nao entenderia nada…
    Hhh

  • Joao do Caminhao

    OK, ironizar aquele texto tem seu mérito e o timing foi perfeito. Usar a visão da babá também é uma boa sacada, mas achei que transformar a babá no protótipo do que é uma pessoa pobre, na visão de uma pessoa elitista, ao invés de acentuar a ironia teve o efeito contrário. Só confirmou o preconceito. A babá sempre rola na areia, não pode gostar de prato fino, tem que falar errado? Achei mal construída a personagem, ora fazendo ironias no estilo “piaui”, ora no estilo “caco antibes”. Enfim, foi bom pela intenção, mas a execução acabou anulando parte da graça.

  • Rafucko

    Paulo, muito obrigado por esse texto. Eu tô lendo pela 10ª vez e chorando de rir como se fosse a 1ª. Genial!

  • http://www.facebook.com/claudia.luizabueno Claudia Luiza Bueno

    Eu tinha lido o texto original e achei um absurdo… até perguntei pra blogueira se ela tinha contratado uma escrava kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

  • Christina
  • Christina

    Regular água no Fasano? F-A-S-A-N-O??? Ah, fala sério!! Adorei seu texto, Paulo! Também adorei o comentário do Leandro por aqui!!

  • Christina

    Ah, esqueci… Parabéns por ter gerado toda essa discussão social! Acho muito bom que as idéias sejam expostas.
    Melhor ainda é que o impacto foi tão grande que ela tirou o blog do ar!
    Adorei!

  • Leona

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

  • http://www.facebook.com/polianamyriam Poliana Santana

    E acham que babá é um indivíduo semialfabetizado. O que você, Daniele, provou muito sabiamente que não é. Tem um português digno de deixar muita patroa com vergonha da forma com que fala ou escreve. Falando como uma mãe que trabalha fora e que precisa ( e muito) dos serviços de uma babá, posso dizer que, assim como Daniele citou em seu comentário – e como o texto trata, à sua maneira – é preciso mesmo expor claramente todas as regras, para que a babá não se sinta perdida. E mais, a obrigação de educar os filhos continua a ser dos pais, não foi transferida à babá quando da assinatura de sua carteira de trabalho. E, por mais espantoso que possa parecer a algumas patroas de classe A ou B, babás também comem. Sim, elas não fazem fotossíntese! E babás que se alimentam mal, quer porque comam pouco ou porque tenham que engolir às pressas, ficam doentes. Alô! Se ficam doentes não vão trabalhar, entendeu? Então, melhor garantir a elas o “direito” de se alimentarem em paz, para seu (patroa) próprio bem. Eu, como patroa plebéia de classe C, asseguro à babá de minha filha o direito de, quando minha mãe não está em casa e não pode auxiliar, colocá-la no cercadinho (a filha, não a babá) para que possa fazer tranquilamente suas refeições. E não é porque temo ficar sem a babá caso ela adoeça; não. É porque sou daquelas que penso que babá também é gente, como também são gente a madame, a perua…

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  • Tania Menai

    AMEI DE-MAIS! UMA EXCELENTE CR´ITICA AO MUNDO DAS MULHERES DA CASA GRANDE!