Tough Guy Race

Versão original do texto publicado na esquina da revista Piauí – edição 64 (abril de 2012).
http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-67/esquina/onde-os-fracos-nao-tem-vez
Tough Guy

Essa é a Tough Guy Race

SÓ PARA MACHÕES
Lama, hipotermia e choque elétrico na corrida mais difícil do mundo

Era um domingo de inverno em Perton, Staffordshire, uma localidade a 20 minutos de Wolverhampton, na Inglaterra. Uma fina camada de gelo cobria alguns pontos dos lagos que faziam parte do trajeto da Tough Guy Race [Corrida dos durões], considerada por muitos (e auto-proclamada) a corrida mais difícil do mundo. O termômetro marcava perto de 1ºC naquela manhã de janeiro quando o canhão disparou o tiro de largada, liberando uma turba de 3,4 mil pessoas de várias idades, vindas de todos os lugares do mundo, algumas fantasiadas. Havia uma boa porcentagem de mulheres e talvez uma dezena de homens usando saias de balé. Desse total presente na largada – segundo as estatísticas apontadas pelos organizadores – pelo menos um terço não consegue terminar o percurso de cerca de 13 km.

O criador da corrida é Billy Wilson, mais conhecido como Mr. Mouse, um simpático senhor de 73 anos portador de um emblemático bigode, que andava pelo local elegantemente vestido com seu kilt, vistoriando de perto os detalhes para o início da prova.

Mr. Mouse tem experiência na organização de corridas. A Tough Guy evoluiu a partir de algumas trilhas cross-country que ele organizava e corria. Apesar de não haver registros oficiais, a maratona de inverno com obstáculos ocorre desde pelo menos 1987.

“Tentamos adicionar algo todos os anos para deixar a prova mais difícil. Às vezes fazemos alguma mudança na rota ou adicionamos novas voltas nos slaloms, alguma alteração para deixar algum obstáculo maior ou um pouco mais difícil. Qualquer coisa para ser diferente cada vez que alguém corre. Eu fiz a corrida 11 vezes no inverno e 8 vezes no verão, e foi diferente em todas elas”, diz Paul Gossy, 46, que, além de ajudar na organização, é um dos marshals que ficam espalhados pelo local auxiliando os competidores que não conseguem continuar. “Nós costumávamos ter alguns fios elétricos no Tiger, e agora adicionamos alguns no Interrogation Pit, alguns no Viagra Falls. Este ano há fios elétricos em todo lugar.”

Choques elétricos são apenas uma parte do masoquismo a ser enfrentado no Killing Fields, o campo mortífero de obstáculos presente no final da prova, que também inclui arrastar-se por dentro de canos, atravessar fogueiras, rastejar por baixo de um campo de arame farpado, dependurar-se em cordas a grandes alturas, ultrapassar montanhas de pneus, pular e mergulhar em lagos quase congelados. Os obstáculos também têm nomes sugestivos, como Torture Chamber (Câmara de Tortura), Vietcong Tunnels (Túneis Vietcongs) ou Death Plunge (Mergulho da Morte).

“Os túneis de água submersos são o pior. Frio é definitivamente o maior problema. Até na prova de verão algumas pessoas sofrem com a hipotermia, principalmente as mais magras, que não conseguem reter tanto o calor. Este ano tivemos sorte porque o clima está mais ameno. Nossa prova mais fria foi com -9ºC. Havia uma camada de 10 cm de gelo nos lagos e antes de começar tínhamos que passar quebrando o gelo para os participantes poderem pular”, disse Paul.

Hipotermia, hipertermia, desidratação, cortes profundos, sangramento e ossos quebrados. A lista de efeitos colaterais da corrida está presente em um folder entregue aos participantes no ato da inscrição. Em fonte Comic-Sans e imagens esticadas, o folheto ainda informa que “todos os participantes devem estar vacinados contra o tétano”, o que me obrigou a buscar inutilmente em minha memória todos os carimbos em minha carteirinha de vacinação. “I accept that, if I die doing Tough Guy, it is my own bloody fault for being here” [Eu aceito que, se eu morrer durante a Tough Guy, a culpa é minha por ter vindo], também dizia o termo de compromisso que todos deviam assinar e que incluía uma recomendação para que os participantes contratassem um seguro-saúde. Durante a prova, o tráfego de ambulâncias era constante. O público geral não é incentivado a ir assistir a corrida para que ambulâncias e médicos possam trafegar mais livremente – e se preocupar exclusivamente com atletas, não com espectadores. A corrida já fez duas vítimas fatais: em 2000 e em 2007, quando competidores sofreram um ataque cardíaco provocado por extrema hipotermia.

Os obstáculos, entretanto, não se restringem somente ao Killing fields, estando espalhados por todo o trajeto da corrida. Um caminho bem cruel, que envolve subir e descer um morro várias vezes, atravessar um córrego lamacento, pular muros e rastejar por baixo de redes em um bosque. O clima durante a corrida não é de rivalidade, mas de cooperação entre os competidores, que se ajudam, puxando uns aos outros para superar obstáculos. É uma competição em que “terminar” é mais importante do que “terminar primeiro”. A edição deste ano teve, além de alguns ossos quebrados e algumas centenas de pessoas com hipotermia, 2851 finalistas, entre 17 e 69 anos.

Questionados sobre o porquê de se proporem a fazer algo tão imbecil, a maioria dos participantes não possui uma resposta apropriada. “Eu devia estar bêbada quando fiz a inscrição”, disse a holandesa Paula Ijzerman, 36, gerente de produtos de uma multinacional. “E lama. Tem algo a ver com lama. Eu adoro lama.”

“Minha mãe fez a corrida dez anos atrás, e desde então venho juntando coragem para fazer também”, disse a gerente de RH Fiona Wynne, 34, que ainda por cima conseguiu arrastar três amigos para essa estultice.

“Acredito que tenha a ver com uma vontade de viver a vida no seu máximo”, diz Pio Cardoza, 41, que se preparava para sua segunda Tough Guy consecutiva. Pio já correu três maratonas ao redor do mundo e considera essa prova muito mais difícil do que qualquer outra. “Numa maratona, tudo o que você tem que fazer é continuar indo, continuar correndo. Aqui não. Há tantas coisas que passam pela sua cabeça, e há a água congelante, a altura, lugares fechados, todos os seus medos têm que ser enfrentados.”

Peter Fee, 41, veio de Nova York só para fazer a corrida: “A sensação de união, a satisfação de ter completado, a antecipação antes da largada são coisas que eu jamais vou esquecer”, declarou, após cruzar a linha de chegada. E diz que pretende fazer a prova de novo: “O evento todo me elevou como pessoa a um nível melhor. Mal posso esperar pelo próximo ano.”

Os finalistas são recebidos com uma manta térmica, chá, chocolate quente e biscoitos. Eu concluí o percurso em 3h41, cambaleante. Ao cruzar a linha de chegada, não sentia mais meus pés, congelados, tinha um gosto de lama na boca, cãibras em cinco pontos diferentes das pernas e não pretendia nunca mais fazer aquela paspalhice de novo. Durante a corrida, enquanto atravessava o obstáculo skywalker, fui ultrapassado por um senhor de 60 anos que estava fazendo a prova pela 35ª vez, entre edições de inverno e verão. Aquele sim era um Tough Guy.

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Crédito da imagem: http://www.dailymail.co.uk/news/article-2093629/Not-faint-hearted-Hundreds-annual-Tough-Guy-challenge.html

Agradecimentos à Vanessa Barbara, que me ajudou muito na produção deste.