O caminho para Abkhazia

Long-Read

…da cobertura da Copa do Mundo de não-países (evento da CONIFA), com o relato completo de minhas aventuras pelo não-país Abkhazia…

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outros long-reads…

Em julho de 2016, estive na Abkhazia para fazer minha primeira cobertura jornalística, na Copa de Futebol do Mundo, organizada pela CONIFA. A matéria final foi publicada na revista SuperInteressante de setembro/2016, edição 365. (link).

No começo da década de 90, após a dissolução da União Soviética, a Georgia conseguiu sua independência. Menor que o estado de Santa Catarina e localizada a leste do Mar Negro, fazendo fronteiras com a Rússia ao Norte, Turquia e Armênia ao Sul, Azerbaijão a Leste e banhado pelo Mar Negro ao Oeste, o país está em uma região aonde começa a ficar obscuro se estamos na Europa ou na Ásia.

As tensões entre Rússia e Georgia, entretanto, não cessaram com a independência. Em 2008, a crise diplomática entre os dois países explodiu em uma guerra, resultando em algumas centenas de mortos (ambos os lados divergem entre os números) e alguns milhares de refugiados – em sua maioria, georgianos que foram expulsos das regiões separatistas.

A Abkhazia é uma dessas regiões. Ligeiramente maior do que o Distrito Federal e com uma população de pouco mais de 200.000 habitantes, ela virou um popular destino de turistas da classe média russa, que fazem uso de seus resorts e praias. A Abkhazia declarou sua própria independência em 1999, apesar dela só ser reconhecida como um país por Rússia, Nicaragua, Venezuela, Nauru (uma ilha da Micronésia), e dois outros territórios separatistas: Transnistria na Moldova e South Odéssia (a outra região separatista da própria Georgia).

outdoor em Sukhumi anuncia o evento

outdoor em Sukhumi anuncia o evento

A Copa do Mundo de não países
“Cara, vai ter uma Copa do Mundo de não-países”, disse Alain, quando eu fui visitá-lo em Köln em janeiro de 2016. Oras, esse é exatamente o tipo de evento que me chama a atenção. Entrei no site oficial do evento (http://worldfootballcup.org/) atrás de tickets, mas me deparei com uma mensagem dizendo que os tickets online só seriam disponibilizados posteriormente (no final nunca foi possível comprá-los pela internet). Havia porém um link para “media accreditation”, o qual eu fui petulante o bastante para clicar e enviar uma requisição. Foi assim, depois de convencer a organização que eu era um jornalista freelancer que eu consegui uma credencial de imprensa pela primeira vez em minha vida.

Não tive alternativa senão começar a planejar a melhor forma de chegar à Abkhazia. Porém não é uma tarefa tão simples. O aeroporto de Sukhumi, único público do país, não recebe muitos vôos internacionais e as fronteiras são complicadas de ultrapassar. Nem a internet ajudou nessa tarefa: não é um destino turístico muito popular e raríssimas páginas exibiam dicas em outras línguas que não fossem russo.

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Entrevista com Sascha Düerkop

Em julho de 2016, estive na Abkhazia para fazer minha primeira cobertura jornalística, na Copa de Futebol do Mundo, organizada pela CONIFA. A matéria final foi publicada na revista SuperInteressante de setembro/2016, edição 365. (link).

entrada dos jogadores na grande final

Na ocasião, como jornalista amador, consegui fazer uma entrevista com o secretário geral da CONIFA, o alemão Sascha Düerkop. “Ah, você mora em Berlim! Vou finalmente poder conversar com alguém na minha língua materna?” exclamou ele, com felicidade, ao me encontrar pela primeira vez. Mas não. Meu domínio da língua germânica ainda é pior do que minhas capacidades jornalísticas, então a entrevista ocorreu em inglês mesmo, na tarde de um sábado, na sala de imprensa do estádio de Sukhumi durante o período de intervalo entre dois jogos.

Sascha foi extremamente simpático e atencioso e muito da entrevista pôde ser aproveitado na matéria final. A seguir, a entrevista completa:

Screen Shot 2016-08-10 at 17.08.35Entrevista com Sascha Düerkop
Secretário geral da CONIFA
(julho/2016)

PAULO VELHO: A FIFA possui 211 associações. Isso é muito mais do que a quantidade de países reconhecidos pela Nações Unidas. Isso é porque a FIFA tem diferentes definições sobre “o que é um país”. Como isso funciona para a CONIFA? O que a CONIFA considera um país?
SASCHA DÜERKOP: Nosso principal conceito sobre esse assunto é perguntar às pessoas sobre com o quê elas se identificam. Então são os times que mandam as aplicações para nós e deve haver um certo grupo de pessoas representados por eles. Deve haver uma identificação entre um povo e nação que os representam na CONIFA. A FIFA possui regras diferentes da ONU, o Comitê Olímpico também tem regras diferentes, então realmente não há uma definição clara do que é um país ou uma nação. Então o que fazemos é perguntar aos times, perguntar às pessoas “Com o que vocês se identificam? O que vocês sentem que são em seus corações?” e eles podem formar uma seleção nacional e com isso enviar a inscrição para a CONIFA. Continuar lendo

Alex Silva: A imagem do Brasil

Deixa eu compartilhar uma basófia que se sucedeu há um tempo atrás.

ahn?

Eu estive em Estocolmo a trabalho. A viagem era custeada pela empresa, incluindo a alimentação, então nessas ocasiões eu procuro me alimentar de coisas que eu geralmente não como, por exemplo: comida de verdade.

Na noite de uma agradável terça-feira, fui a um restaurante. Eram cerca de 20h e o sol ainda brilhava feliz da vida no céu sueco. Escolhi um lugar não muito hedonista, apenas tinha algumas coisas que eu não estou acostumado a ter nos lugares em que eu geralmente me alimento, como talheres limpos. Fui atendido por um garçom de aparência ligeiramente árabe-européia, provavelmente oriundo de um país mais peculiar, como Bulgária ou Sérvia. Comi um belo bife e, na hora de pagar a conta, como ele viu que eu só falava inglês (com um sotaque ligeiramente turístico), decidiu que seria maravilhoso conversar comigo.

Acompanhem a versão traduzida do diálogo:

– Vocé é daonde?
– Brasil
– Oh! Brasil… Alex Silva! Conhece ele?
– O jogador?
– É.
– Conheço…
– É… Grande jogador… Tem também o Roberto Carlos!
– Roberto Carlos? Mas já é velho.. hoje em dia tem o Neymar – (não que eu goste realmente do Neymar, mas eu não estava gostando do rumo futebolístico da conversa)
– Sim… Você gosta do Neymar?
– Olha… eu prefiro o Kaká – (porque eu disse isso?)
– Tem também o Rincón.
– Rincón? – aí ele pegou pesado… eu ergui uma sombrancelha (ou as duas, não sei, eu não estava me vendo) – O Rincón é boliviano! – (eu sei que ele é colombiano, mas no susto da situação eu tenho quase certeza que alterei a nacionalidade do negão. Eu precisava tirar ele do Brasil!)
– É.. é… É de uma cidade muito pequena. – disse ele fazendo um sinal de pequeno com as mãos.

Eu desisti da conversa aí. Saí meio confuso do restaurante e depois de algumas esquinas me distrai com uma coletânea de loiras de olhos azuis que passavam de shortinhos.

Abraços ao Rincón, que patrocinou a portuguesa com o seu café.

Lembrando que o Rincón, depois de se aposentar do futebol, associou seu nome a uma marca de café. É uma tentativa comum entre os colombianos a de ganhar dinheiro com pó.

Porque não é considerado racista dar um nome de um negro a um café, mas seria se a gente desse um apelido de café a um negro?

Goodbye, London! Cheers!

O sol brilhava no sábado, 22 de setembro quando eu cheguei na King’s Cross Station, com uma mala de 30kg, um mochilão de viagem e uma outra bolsa onde carregava o notebook. Uma brisa fria soprava, já anunciando o fim do verão. Pelo menos não chovia, o que, aliado com a visão do Sol, é o melhor clima que Londres podia me ofercer como despedida, depois de quase um ano morando na cidade. Não precisava, Londres… O prazer foi meu. Parti de Londres de trem, da mesma estação que havia chegado 350 dias antes. A impressão ainda é de que eu não conheço a cidade o suficiente… Há tanto pra ver que eu não vi, tanto pra ir que eu não fui e tanto a aprender que eu deixei passar. Um ano é pouco para conhecer Londres. Talvez uma vida ainda não seja o suficiente.

So long and thanks for all the fish (and chips)

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O legado Olímpico

No longínquo ano de 2005, concorriam com Londres o direito de sediar as Olimpíadas de 2012 Paris, New York, Moscou e Madrid.

Paris 2012

Paris 2012… perdeu, Monsieur

Não consigo imaginar quão terrível estaria a economia espanhola agora se, além de todos os problemas enfrentando a atual crise, eles ainda tivessem que se preparar para uma Olimpíada. A França, também tentando fugir de uma crise, está em um atual processo de reformulação política e é certamente melhor que politicagem e clima olímpico não se misturem. Os russos provavelmente gastaram todo o dinheiro do orçamento em vodka.

New York é um exemplo à parte. Ao perder o direito de sediar as Olimpíadas, a cidade pôde investir o dinheiro que seria gasto em estrutura de estádio e vila olímpica em coisas mais úteis e que os nova-iorquinos estavam realmente precisando, além de ter realmente cumprido boa parte da revitalização planejada se tivesse sido eleita. E, além de tudo, pôde fazer tudo com calma, tendo projetos de expansão do transporte público em andamento até 2014. Os ganhos para a cidade foram maiores do que se ela tivesse realmente sido escolhida para sediar os jogos – e é nisso que é baseado o título do artigo “How New York City won the Olympics”, de Mitchel Moss (novembro/2011) [link – pdf].

NYC – 2012

Mas Londres deu ao mundo uma olimpíada primorosa. A toda hora parecia que alguma coisa ia dar errado – e tudo beirou a perfeição. A rede de transportes foi impecável, a segurança foi constante e até o clima ajudou. O planejamento foi tão minucioso que deixa uma cidade sem elefantes brancos – grandes áreas foram revitalizadas e a Vila Olímpica foi propositalmente construída numa das regiões outrora mais pobres de Londres, Stratford (a meros quatro quilômetros aqui de casa); primeiro erro brasileiro, que está construindo sua Vila Olímpica na abastada região da Barra da Tijuca. O legado sustentável que as Olimpíadas deixam a Londres é inegável. Continuar lendo

Os piores Tumblrs da internet

Pra que servem os tumblrs? Eis o mistério da internet.

Um tumblr é mais simples que um blog, mas mais complexo que um twitter. Menos social que o facebook, mas mais popular que o Google+. Ele surgiu para ocupar uma lacuna que não existia e prover um serviço que ninguém precisava. Como a maioria dos outros sucessos da internet. Um tumblr seria uma alternativa de conteúdo um pouco mais direcionado e específico. Por exemplo:

Quão específico eles podem ser? Que tal um tumblr composto somente de crianças comendo melancia:

http://criancascomendomelancia.tumblr.com/

Crianças comendo melancia

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Eurotrip pelos Estados Unidos

Continuação direta dos meus primeiros dias em Londres

Mesmo sendo um emprego que não me agradava, a segurança de um trabalho me deu a tranqüilidade e o dinheiro suficiente para procurar calmamente por outro. Sem contar que era muito fácil não fazer nada naquele emprego – até mesmo porque eles não me davam tarefa nenhuma. Eu nem precisava ficar jogando poker online o dia inteiro com a justificativa de estar testando o sistema.

Paralelamente ao trabalho, inciei diversos processos seletivos. Um deles envolveu várias etapas, culminando com um dia final contendo um rodízio de entrevistas, das 10h às 17h. O processo seletivo, porém se mostrou extremamente ineficiente, uma vez que eles chegaram à conclusão de me contratar.

Já que eu me considerava um inútil naquela empresa, abandonei meu emprego no site de pôker antes de terminar meu aviso-prévio (o que eles poderiam fazer? me demitir?). Na minha última semana de trabalho, havia recebido uma ligação do meu futuro/atual emprego perguntando se eu podia ir para os Estados Unidos fazer parte de um treinamento. Era uma quinta-feira quando eles me ligaram. Naquele domingo, 11 de dezembro, eu estava partindo para os Estados Unidos, para passar uma semana em Indianápolis e uma em Raleigh.

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Primeiros dias em Londres

Parlamento

O Big Ben está começando a entortar porque o parlamento é, na verdade, feito de cortiça...

Foram seis divertidos meses que eu passei em Portugal. Quando eu parti da península Ibérica, no começo de setembro, com a idéia de fazer um mochilão pela Europa com amigos, eu já não tinha pretensão nenhuma de voltar. Assim, eu adquiri um problema: eu ia terminar a viagem em algum lugar aleatório e terrivelmente longe de onde ela começou. E, sendo uma viagem com gente jovem, forte e maluca, não fazia sentido carregar mais pertences do que aquilo que coubesse em meu mochilão de viagem. Então, coloquei em minha outra mala todos os pertences que eu achei que não precisaria (calças de neve, grossas blusas de frio, uma tablet de desenho, tomadas extras para o falecido macbook, alguns livros que eu ainda não li e quase todas as roupas sociais que eu tinha, exceto por uma camisa que deixei na mochila para se surgisse uma oportunidade de emprego no meio da viagem), com os planos de despachar essa mala para algum lugar que fosse mais próximo do meu futuro desconhecido destino.

Entre as alternativas que eu tinha, envolviam uma tia em Paris, um amigo na Bélgica e um amigo na República Tcheca. Meus planos eram mais obscuros do que programação do SBT, mas eu tinha uma forte propensão para ir à capital francesa com o objetivo de aprender francês e comer baguete. Lá se foi então minha mala conhecer a França. E lá fui eu conhecer o resto da Europa…

Então, Londres

O relógio da torre marcava 5h40 quando eu saí da casa de meus tios em Hengelo, na Holanda. Era uma segunda-feira, 10 de outubro de 2011 e eu estava cansado. Nos trinta dias que se passaram desde minha partida de Portugal, eu havia visitado cinco países e uma oktoberfest com três grandes amigos que vieram do Brasil (Andrey, Gabi e Ormeni, SEUS LINDOS!), numa eurotrip mais divertida do que falar mal de ex. Quatro dias antes eu tinha me despedido deles em Amsterdam e, sem outro destino, parti em direção à casa de meus tios, que estavam se mudando na altura para a Holanda para viver lá a trabalho por um tempo.

Torre de Hengelo

A torre de Hengelo

Estava realmente muito frio. Uma garoa fina caía, mas eu não achei que fosse o suficiente para abrir meu recém adquirido guarda-chuva. Havia comprado-o um dia antes: eu sabia que ir para Londres sem guarda-chuva é como ir para o Rio de Janeiro sem seguro de vida. Além de minha ferramenta proteccional contra água caída do céu, eu usava duas camisas, uma calça jeans absolutamente nova (uma vez que minha velha calça havia cedido por completo ao furo que já tomava conta da região glútea) e o mesmo par de botas e a mesmíssima blusa que eu usava quando cheguei em Lisboa, exatos sete meses antes. Continuar lendo

Lisboa – Parte 3

Terceira parte da minha saga pessoal de seis meses em Lisboa.

Janelas de Alfama

Crise!

A União Européia instituiu o euro em janeiro de 2002. Já faz quase 10 anos, mas parece que eles ainda não acostumaram sua economia à unificação da moeda.

Não sou nenhum economista – muito pelo contrário -, mas parece que é tudo relacionado com o câmbio, que devia flutuar de acordo com a produção, mas acaba se mantendo preso às definições continentais. Algo complexo demais para eu entender bêbado e chato demais pra eu me preocupar sóbrio.

A crise se espalhou. Países mais fracos, como a Grécia (ou meu Portugalzinho) foram os primeiros a sentirem. A situação ficou tão ruim que surgiu um bloco chamado “PIIGS”, composto pelas iniciais dos países nele pertencentes: Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha. O nome PIIGS também é uma associação a “Porco”, que implica que a coisa nesses países anda tão ruim quanto no time do Palmeiras.

A Grécia é atualmente o lugar que tem a situação mais delicada. A situação por lá anda tão ruim que eles já até ameaçaram abandonar o euro. O país está juntando os cacos, como sempre fazem após um casamento. Os portugueses olham atentamente a situação da Grécia: sendo o segundo país mais fraco do bloco, a decadência de um vai automaticamente empurrar o outro pra baixo.

A crise em Portugal deve ser abrandada agora com uma ajuda externa do FMI. Algumas outras medidas emergenciais estão sendo tomadas para suprir o atual rombo da economia, o que inclui um imposto extra extraordinário no décimo terceiro salário de todos os portugueses; um imposto pesado, de 50% de tudo o que for acima do salário mínimo.

Alguns portugueses mais desesperados já estão trocando piadas por comida.

Mas a coisa não anda feia só na terrinha. Ainda na península ibérica, uma revolta popular tomou conta das ruas de Madrid exigindo algumas mudanças políticas no sistema de votação da Espanha. O protesto se espalhou até aos espanhóis residentes em Lisboa que, em maio, para apoiar os compatriotas, fizeram um acampamento na praça do Rossio em Lisboa, extendendo o protesto. A Espanha segue com uma taxa de 20% de desemprego e uma série de protestos pelo país.

Até países com uma economia forte e boa produção, que não fazem originalmente parte do PIIGS estão começando a sentir os efeitos da crise européia, como a França.

Entre os problemas políticos é estranhamente curiosa a situação da Bélgica. A Bélgica é um país bizarro. Ela é composta de uma metade francesa, uma metade propriamente belga e uns pedaços alemães, incorporados depois da Segunda Guerra (ou algo do tipo). A Bélgica possui então, um governo e um parlamento distinto para cada uma dessas partes. E elas devem entrar em acordo para formar um governo belga centralizado. Obviamente que fazer três parlamentos entrarem em acordo é como resolver uma pendência entre duas garotas brigadas entre si, só que sem a ajuda de uma luta no gel bem organizada. É por isso que a Bélgica já está há mais de 400 dias sem governo – e não parece que vai conseguir se organizar politicamente em um futuro tão imediato. Durma com um barulho desses.

Tão grande como a crise é a crença européia de que agora o Brasil é o país da vez. “O que diabos você está fazendo aqui? Se eu pudesse, eu iria mesmo era pro Brasil”, me disseram várias pessoas sem perceber que eles realmente podem ir pro Brasil. O país está realmente crescendo, mas ainda assim estamos sendo altamente superestimados por aqui.

Problemas políticos e corrupção definitivamente não é algo exclusivamente brasileiro. O que é vergonhoso mesmo é a forma como os políticos da República das Bananas se sentem livres e eternamente impunes, e a forma como os brasileiros são tratados como bestas. Crise nenhuma em país nenhum se assemelha a isso.

E assim a economia européia segue em uma ligeira decadência; Os Estados Unidos possuem uma dívida astronômica e a Inglaterra teve problemas sérios com a violência assolando as ruas… O Brasil pode ainda não ter virado primeiro mundo… Mas parece que o primeiro mundo virou Brasil.

Minha segunda casa

A vida de desabrigado seguia e eu não podia depender da boa vontade de amigos pelo resto de minha estadia em Lisboa – principalmente porque todos estavam indo embora e a quantidade de casas dispostas a oferecer um pedaço de chão para um brasileiro dormir se reduzia como virgens em um carnaval.

Voltei então ao site que oferecia habitações a estudantes. Com tantas pessoas indo embora, não deveria ser difícil encontrar uma nova casa disponível, em uma boa localização e a um preço acessível. Realmente não foi.

Aluguei rapidamente um quarto absurdamente bem localizado, em um apartamento no Baixa-Chiado, na região central de Lisboa, a 100m de duas linhas de metrô e com vista para o Castelo de São Jorge. O apartamento era habitado por três italianos divertidíssimos – e eu, que estava me dedicando a tentar aprender francês, mandei a língua às favas em troca de estudar italiano (lógico que, a partir do momento que eu tentei aprender duas línguas ao mesmo tempo eu consegui habilmente não aprender nenhuma).

Como bons italianos, meu período na segunda casa foi a época que eu mais me alimentei. Quase toda noite vinham visitas novas para comer alguma coisa – em 100% das vezes era massa, geralmente com atum. Atum era o combustível que impulsionava nossas vidas.

Os italianos eram pessoas ótimas. Massimo, de Torino, um dia me disse que o almoço dele se baseava em bolachas com atum. Quando perguntei se ele colocava uma maionese, pra ficar pastoso, ele foi direto. “Não! Atum tem que ser puro. Sou conservador.”

Jantar em casa

Mais um típico jantar baseado em massa com atum

Jack e Jacopo eram os outros dois habitantes da casa. Ao contrário das outras residências que eu fiquei, os italianos não eram estudantes, mas estavam em Lisboa trabalhando – apesar da faixa de “Greve Geral” que seguia estendida em nossa sala. A rotina então era menos acadêmica, o que incluía os moradores acordando cedo e, por vezes, até lavando a louça.

Tal qual nas outras casas, porém, essa também recebia constante visitas que dormiam na sala. Às vezes de amigos que moravam em Lisboa mesmo, mas não numa região tão central quanto nós (que estávamos a 3 minutos do Bairro Alto, central da boêmia Lisboeta). Outras vezes eram francesas que alguém conheceu na praia, italianos viajando a Europa de moto ou embriagados amigos brasileiros meus que vieram me resgatar e levar para a Oktoberfest.

Lamento o fato de só ter ficado dois meses nessa casa. Foi uma casa que se mostrou muito acolhedora, não só a mim, mas a todos que agüentavam subir os cinco andares de escada que levavam até ela.

Pelo Tejo vai-se para o mundo

Parece incrível pensar que eu fiquei só seis meses morando em Lisboa. Às vezes parece que foram anos, outras vezes parece que tudo passou tão rápido quanto uma ejaculação precoce. A pessoa perdida que chegou aqui em fevereiro é inefavelmente diferente da pessoa ainda perdida que está deixando Lisboa em setembro.

Eu nunca fui um cara sentimentalista. Muito pelo contrário, eu sempre me achei completamente desprovido de emoções. Mas foi curiosíssima a montanha-russa que se passa estando sozinho longe dos amigos e da família. Por diversas vezes me vi sozinho, triste e deprimido para, 15 minutos depois estar eufórico, animado e ansioso com alguma coisa. Essa montanha-russa parece constante. É como se meu estado psicológico tivesse finalmente despertado e ficasse pulando feito um retardado, por vezes chutando, outras afagando o meu hipocampo, quase causando uma pane em meu sistema límbico.

Aprendi a ser organizado. Aprendi a controlar meu dinheiro.

Tive uma aproximação muito maior de alguns amigos no Brasil. Parece que ter ido para longe de certas pessoas só nos fez ficar mais próximos.

Meus amigos do Brasil são um caso particular. A família é obrigada a nos agüentar pelo resto da vida, então eles não vão conseguir se livrar de mim. Os amigos não. Por isso que eu me senti muito fortalecido por tudo que meus amigos fizeram por mim. Eu sinto que, se eu voltasse para casa agora, seria como se eu nunca tivesse saído – acho que a proximidade com algumas pessoas que eu deixei até aumentou.

Também fiz ótimos amigos em Portugal – não só em Lisboa, mas espalhados por este pequeno país. Com o tempo, aprendi a gostar desta malta fixe que atende o telemóvel dizendo “Estou?”.

Amo Lisboa e a cidade me acolheu estupidamente bem. Mas no final de agosto, a vista do Castelo de São Jorge já não me impressionava como antes. Já conhecia o horário dos bondinhos, as pedras soltas da calçada da Rua Augusta e já não me perdia nos labirintos de Alfama.

Agora era a hora de eu ir embora.

E eu fui.

Lisboa – Parte 2

A minha primeira casa era alugada pelo Hugo que, por sua vez, sub-alugava os quartos para o restante dos pobres moradores – todos estudantes em intercâmbio. Eu sabia então que, ao fim do ano letivo de Erasmus eu teria que procurar algum outro lugar para morar – lembrando que na Europa, assim como nos Estados Unidos ou em Hogwarts, o ano letivo vai de setembro a junho.

Era previsto então que eu deixasse a casa no começo de julho. A novidade foi em maio o Hugo me chamar para contar que alguns fatores o levaram a adiantar a volta dele à França, o que nos obrigaria a ter que deixar a casa no dia 11 de junho. Como todos eram estudantes que só iam ficar mais algumas semanas em Lisboa, então ninguém se dispôs a alugar a casa toda, sobrando para cada um de nós improvisar a moradia.

Duvido que tenha havido um dia pior para sermos jogados no olho da rua. A maior festa de Lisboa acontece dia 12 de junho. É a festa de Santo Antônio.

Festa das Sardinhas

As festas de Lisboa acontecem, na verdade durante todo o mês de junho. São as festas juninas, celebrando os dias dos santos, com barracas montadas em frente aos largos das igrejas e bandeirolas enfeitando as ruas. Quiosques vendendo cerveja surgem em todo canto e a cada esquina há um português assando sardinhas.

O principal dia é 12 de junho, dia de Santo Antônio, padroeiro de Lisboa. Há uma parada extremamente chata que atravessa a avenida da Liberdade, e as estreitas ruas que formam o labirinto que é Alfama são tomadas pelo povo. A festa é realmente divertidíssima. A cidade do Porto tem como dia principal 23 de junho, dia de São João – também estive lá na tarde do dia 23, mas só pegando um vôo para Marrocos.

Festa das Sardinhas

Ruas de Alfama durante a Festa das Sardinhas

Uma vez expulso de casa, reservei um quarto de hostel com Julien (o outro francês desabrigado). Foi realmente uma sorte pois, por conta da festa, a maioria dos hostels já estavam cheios. Se tudo desse errado, ainda tinha esperança de conseguir dormir no sofá (ou no chão) da casa de algum amigo do Erasmus.

A maioria dos meus amigos eram estudantes do Erasmus. Por conta deles que a Festa das Sardinhas me pareceu uma versão tão embriagante de um carnaval. A primeira noite foi alimentada com vinho e sardinhas na confusão absurda das estreitas ruas de Alfama – o que incluiu me perder deles e achá-los de novo algumas vezes. O segundo dia pude acompanhar a enfadonha parada da avenida Liberdade que foi ficando mais divertida conforme eu ia ficando mais bêbado.

Eu não gostava de sardinha antes das festas juninas de Lisboa. Nesse período eu comi tanta que passei a gostar.

O grande divertimento das festas de Lisboa foi mesmo pelas companhias. Desde que cheguei na Europa, estive vivendo com universitários, dividindo repúblicas, indo em festas na casa de estudantes, com pessoas que chegam dizendo que não podem beber muito porque tem prova no dia seguinte (e terminam jogadas ao lado da porta). Conheci pessoas de toda a Europa; Se no começo eu ia para casa de alguém sem conhecer ninguém lá, na terceira vez que se vai a uma dessas festas, já se conhece metade das pessoas. E assim, aos poucos, passei a ser quase toda noite convidado para algum evento do tipo.

Desabrigado

Foram esses amigos que me cederam um teto e um colchão (ou um sofá ou até mesmo um pedaço de chão) durante o mês de junho e metade de julho. O ano letivo estava acabando e todos os estudantes estavam indo embora, voltando a seus países, e eu sabia que cedo ou tarde acharia um bom quarto para morar. Entretanto, como tinha duas viagens de 5 dias cada uma no período, decidi que iria atrás de um lugar para morar só quando voltasse dessas viagens. E assim que eu passei um mês morando de favor.

Fiquei um bom tempo na casa de um divertidíssimo amigo belga que morava bem perto de minha primeira casa. Nick era um programador que trabalhava em um site de putaria em Lisboa, evangelista do Drupal. Ele morava com outros dois espanhóis, uma espanhola, uma alemã e uma portuguesa. No período que fiquei abrigado sob seu teto, me diverti bastante re-assistindo episódios de Lost ou discutindo sobre a complicadíssima política belga.

Depois que Nick foi embora, também passei um bom tempo dormindo no sofá de um tcheco que era o único remanescente do grupo que ainda estava tendo provas – sofrimentos de um estudante de medicina. Também contei com a ajuda de um grego e um outro tcheco, sempre em casas repletas com uma variedade considerável de nacionalidades e uma quantidade mais do que recomendável de placas de trânsito e cones roubados.

Despedidas

Aos poucos, cada um dos meus amigos foi encerrando seu período de intercâmbio e partindo para suas terras natais. O final de junho e o começo de julho foi uma época péssima para quem odeia despedidas. Todo dia era o último dia de alguém. Churrascos de despedidas e últimas idas aos bares do Bairro Alto aconteciam todas as noites e aos poucos comecei a sentir a cidade se esvaziando – as despedidas mesmo iam se tornando eventos cada vez mais discretos.

É uma coisa chata. Nesse período fiz bons amigos que agora se espalham por toda a Europa (e grande parte do Brasil), mas que sei que não voltaremos a ter o contato de antes. Ainda tinha meus amigos do hostel e uma boa parte de pessoas que estavam em Portugal para uma estadia maior – trabalhando e dispostos a ficar por mais tempo. Mas o grande centro ao redor do qual girava todo o meu círculo de amizades era pautado em um universo acadêmico, de festas em repúblicas e jovens malucos que tentavam aproveitar o máximo possível seu breve momento de intercâmbio.

Quando eu finalmente tinha formado um grupo de amigos, eles se foram. E a música sumiu do miradouro da Glória, onde à noite iam os estudantes para beber. Foi ali que, no final de julho, eu me vi mais uma vez sozinho em Lisboa.

Fado...

Fado...