Tempos Interessantes

De todos as cidades que eu já visitei, a que eu acho mais parecida com São Paulo é Istanbul. Gigantesca, com uma população de 14 milhões de pessoas, um trânsito caótico, malha metroviária deficitária, um transporte público à base de carros e ônibus e uma população extremamente receptiva e jovem.

No final de maio, um pequeno grupo de pessoas organizou um protesto em Gezi Park, uma praça na região de Taksim, no centro da cidade. O protesto era pra preservação das árvores do parque, que ia passar por uma reformulação para a construção de um shopping center. Os manifestantes agiram de forma extremamente pacífica, simplesmente ocupando a praça e ficando em frente às máquinas que estavam lá para retirar as árvores centenárias. Não havia um veículo de imprensa sequer para acompanhar a manifestação.

A polícia agiu de forma violenta, usando canhões de água e spray de pimenta.

No dia seguinte, houve um novo protesto, dessa vez com mais pessoas. A polícia novamente reagiu violentamente.

E no outro dia o protesto foi maior ainda. As linhas de metrô que levavam a Taksim foram fechadas para dificultar a chegada dos manifestantes, mas a população de Istanbul se uniu, foram todos a pé e uma multidão se reuniu para ser novamente brutalmente contida pela polícia, que abusou das bombas de gás lacrimogênio, efeito moral e até ateou fogo na barraca dos manifestantes.

Depois disso, o protesto só cresceu e se espalhou. Agora ele não se limitava só à preservação da praça. Ele se transformou em uma gigantesca revolta contra o governo, extremamente conservador e historicamente religioso. Durante todo esse tempo, a imprensa turca não cobriu os protestos – o povo combinava os eventos e passavam as informações entre si usando simplesmente a internet e redes sociais. Durante um dos protestos, a CNN estava exibindo um documentário sobre pinguins, transformando o animal num dos símbolos da censura turca.

Os acontecimentos de Taksim foram simplesmente a fagulha que o povo precisava para se unir contra o governo.

Sempre achei Istanbul e São Paulo muito parecidos mesmo.

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A marcha das marchas

Marchemos!
I Shave my balls for this?

I Shave my balls for this?

Começou a temporada de marchas.
A nova mania entre a gente diferenciada é sair às ruas em eventos populares de alguma coisa. É tanta marcha que até o Geraldo Vandré já está de saco cheio.
A marcha é a forma física do hashtag; é o direito do povo; é a maneira que o popular encontrou para se sentir útil da forma mais fácil e barata possível.
É uma coisa que está no DNA do brasileiro, afinal o próprio Carnaval pode ser considerado uma marcha: é a marcha dos desocupados. São pessoas que saem às ruas para não irem a lugar nenhum… Até as músicas se chamam “marchinhas”…
Com tantos protestos e marchas por aí, não fique de fora dessa. Crie já a sua própria marcha!
Para uma marcha ser bem feita, ela deve partir de um princípio inalcançável ou de uma palavra chamativa. Melhor se tiver cobertura da imprensa e cartazes que pareçam ter sido feitos por alunos de segunda série. Pontos extras se entrar em confronto com a polícia.
I am a little upset.

I am a little upset.

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