Roteiro da baixa gastronomia de São Paulo #2

Um guia com os piores lugares para se comer mal sem gastar muito em São Paulo

Tudo isso por um real

Tudo isso por um real

Bom Prato
Rua 25 de março, 166
Refeição completa
Custo total: R$1

Saindo do metrô Sé e descendo a Rangel Pestana encontramos o primeiro indício que estávamos no caminho certo do Bom Prato: um mendigo pedindo um real para o almoço no local. Querendo me enturmar com a clientela local, estendi uma moeda ao rapaz: “Quero ir no Bom Prato também. Posso ir com você?”.

O mendigo prontamente retirou a moeda de meus dedos e disse que precisava ir buscar a patroa dele ali em cima, não sem antes nos indicar o caminho “Fica ali, ó… Esquerda e depois esquerda de novo, na esquina.” e partiu. Sendo dispensado por um mendigo; essa é minha vida.

Eram 11:50 da manhã quando chegamos no salão do Bom Prato. Ainda não havia filas. A casa abre às 11h e o almoço é servido até o término da cota de cada unidade (que varia entre 1200 a 2500 refeições). Desde 2011, as unidades também oferecem café da manhã a R$0,50.

O Governo do Estado subisidia R$3,00 do custo total da refeição, restando ao usuário pagar somente o valor de R$1,00 pelo prato bem servido. Paga-se o valor na entrada, onde recebe-se um cartãozinho que é entregue logo ao lado. Uma pia após a catraca permite que os clientes com um mínimo de asseio lavem as mãos e, posteriormente, seguem para a fila das refeições. Nunca fui preso, mas já comi no bandejão da USP e essa é a comparação mais próxima que eu consigo imaginar para o serviço. Meu prato de porcelana foi inicialmente agredido com uma concha de arroz e uma de feijão simultânea. Seguindo a fila, conchas consideravelmente menores de um bem-temperado frango e berinjela são despejadas por cima. Não há espaço para recusas. Antes que você consiga pensar, a comida é jogada na sua frente. Um pouco de alface picado, uma banana, um copo de plástico de um suco vermelho e um pãozinho meio deformado completam a bandeja.

Arrumamos um lugar no salão onde a movimentação de uma imensa variedade de pessoas de todos os tipos e classes revezavam-se sentando, comendo e saindo. A comida é incrivelmente boa, servida quentinha, melhor que a maioria dos PFs de padarias. A combinação nutritiva é uma das coisas mais saudáveis que eu comi por conta própria no ano.

Um cartaz pendurado no salão pede aos visitantes que cumpram os “7 mandamentos universais para a humanidade”, que inclui não comer a carne de um animal enquanto este ainda vive (ah, vá!) e alerta que a comida no estabelecimento não é kosher – ou seja, não segue completamente todas as normas de alimentação que deveriam ser seguidas pelos judeus mais ortodoxos (eu também não sabia o que era kosher, mas o Google me falou).

Um rapaz de barba suja e boné azul na mesa ao lado retirou um pepino da mochila. Começou a cortá-lo em rodelas em cima de seu prato. Depois retirou uma sacola plástica com sal (julguei que era sal) e jogou em cima das rodelas de pepino. Ainda completou com dois sachês de maionese Hellmann’s. Para finalizar, pegou um limão, cortou-o em duas metades e espremeu uma das metades em cima de toda a comida. Praticamente um profissional do Bom Prato, fez tudo com desenvoltura e calma, sem pressa, humilhando todos aqueles pratos comuns ao redor dele.

Desde sua inauguração, em dezembro de 2000 até dezembro de 2013, já foram servidas mais de 115 milhões de refeições nas 41 unidades em funcionamento do projeto. Ao final da refeição, saciados e satisfeitos, os usuários saem com a impressão que toda a refeição a ser comida até o final de nossas vidas não terá uma relação custo-benefício tão boa.

Em compensação, no mesmo dia, fui abordado por uma ativista do Greenpeace que, na tentativa de me convencer a ajudar a causa ambiental deles perguntou “O que você faz com um real por dia na cidade de São Paulo?”, ao que eu prontamente respondi “Almoço.”. Ela claramente não tinha argumentos prontos para replicar essa resposta.

***

Polo Norte
Recomendado por Galvão Chucruts (mais ou menos)
Galeria do Rock, 136
X-salada-bacon + jarra de suco
Custo total: R$8,50

A indicação de meu amigo apontava, na verdade, para outro lugar, no mesmo andar da galeria. Mas uma olhada rápida no cardápio e na situação engordurada dos azulejos revelou que este seria um muquifo de porte apropriado para completar o roteiro do mês.

Um balcão de vidro vai da porta de entrada do mínusculo espaço até os fundos. No corredor formado, banquinhos enfileiram-se, de forma que os clientes comem em cima do referido balcão. Diversas frutas bem apessoadas aglomeram-se acima da cabeça dos clientes, dando uma idéia mais naturalista ao lugar. E com razão: O suco aqui vendido é maravilhoso.

Fiz minha escolha do cardápio de combos. Um lanche mais uma jarra de suco à escolha pelo apropriado preço de R$8,50. Dependendo do lanche e da complexidade do suco (pode ser uma fruta com laranja ou batido com leite) ou vitamina, os preços variam, mas todas as escolhas parecem uma relação custo-benefício apropriada.

O lanche foi feito com muita rapidez. Resultado, talvez, da superlotação trabalhista que o local parece enfrentar. Eram 16 horas de uma quarta-feira e cinco funcionários se espremiam atrás do balcão atendendo não mais do que três clientes simultâneos (verdade seja dita, um dos funcionários parecia somente estar consertando o telefone). Ainda assim, o sanduíche é daquele tipo estrategicamente montado para que o hamburguer e o recheio ocupem só metade da área do pão – a área que será voltada para você, criando assim um espetáculo visual gourmet. A porção de bacon foi honesta (nada espetacular, mas ainda assim altamente perceptível) e a rodela de tomate era vistosa – completando assim a excelente relação do lugar com suas frutas.

Por falar em frutas, o suco de goiaba que eu pedi estava espetacular. Foi servido em uma jarra generosa, feito da fruta natural, que fica exposta no balcão ao lado de outras iguarias à venda, como iogurtes naturais, polenguinho, potes de margarina ou requeijão. Atrás do balcão é possível observar outras quinquilharias vendidas pela lanchonete, como isqueiros, pilhas, cola-bonder ou gilletes.

A porta do microondas cheia de adesivos engraçadinhos e de bandas não te deixa esquecer que você está na galeria do rock. Mas o festival de camisas escuras, meias góticas e penteados artísticos que passeia nos corredores enquanto você tenta se distrair com seu lanche também não deixaria.

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Literalmente popular

Literalmente popular

Yakissoba
Recomendado por Petri Nocentini e Mauro Junior Felão
Rua Conselheiro Rodrigues Alves ~ próximo à estação Ana Rosa
Yakissoba pequeno
Custo total: R$5

“Eu conheço um Yakissoba de rua que o japonês lava a panela na guia”, disseram meus amigos, sabendo que essa descrição me incentivaria a conhecer o lugar.

O local indicado, porém não era apropriadamente acurado. Foi ligeiramente trabalhoso encontrar o carrinho prateado, uma grande panela repousada sob um forte fogareiro, alguns condimentos empilhados ao lado. Naquela tarde nublada, os yakissobas eram servidos ao lado de um lindo jardim (leia-se: um pé de ibisco), debaixo de uma placa que dizia “Travessia de deficientes” no poste ao lado.

Um magricela nipônico – julgo que era um chinês – comandava com destreza a caçarola, jogando a comida para cima de forma a misturar os ingredientes e adicionar um pouco da fuligem dos ônibus próximos, para dar aquele gostinho de cidade grande. “Cinco pequeno; Sete grande”, disse ele quando perguntei o preço. É provavelmente também a única coisa que o vendedor sabe dizer na língua de Camões. Pedi um pequeno e ele depositou caprichosamente uma generosa porção dentro de um recipiente de isopor. Colocou tudo dentro de um saco plástico, pegou um garfo descartável e jogou lá dentro. “Hashi!”, pedi eu. Ele meteu a mão no saco (plástico, bom enfatizar), retirou o garfo e jogou rudemente um hashi apropriadamente embrulhado lá.

A maioria dos clientes levava a refeição para viagem. Parti, porém, para a experiência completa, que foi apoiar-se no muro perto do ponto de ônibus e degustar essa iguaria da culinária oriental ali mesmo. Recomendo essa opção: o isopor vêm tão cheio de comida que ela começa a vazar para o saco plástico, então torna-se lúdico caçar pedaços de frango no saco com o hashi, enquanto apreciamos o mestre cuca chinês exercer sua arte: entre um cigarro e outro, ele retira o macarrão pré-cozido de gigantescas sacolas transparentes dentro do carrinho e aplica sempre quantidades completamente aleatórias de molho shoyu.

“Você está sempre aqui?”, perguntei para ele em um momento. Ele olhou pra mim, surpreso que algum cliente tinha uma pergunta nova. Fez uma cara de dúvida e apertou ainda mais os olhos já puxados para forçar o cérebro a entender o que eu estava falando. Repeti a pergunta. Ele fez uma mímica apontando o próprio peito e logo em seguida apontando para baixo. “Sim! Você está sempre aqui?” ao que ele respondeu com alguma palavra incompreensível, mas que soava algo como “Tercesso!”. Aceitei que era o melhor que podia obter dele e voltei as atenções ao meu Yakissoba antes que ele esfriasse (o macarrão, não o chinês).

É uma refeição bem honesta. A experiência completa talvez inclua uma visita à farmácia, que fica apropriadamente bem em frente, do outro lado da rua. Dependendo da situação de seu sistema digestivo, pode-se cruzar a via usando a travessia de deficientes.

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+ MAIS +

Outros roteiros:

Roteiro da baixa gastronomia – edição África
Roteiro da baixa gastronomia de São Paulo #3
Roteiro da baixa gastronomia de São Paulo #1

Sobre o Bom Prato:

http://www.desenvolvimentosocial.sp.gov.br/portal.php/bomprato

Para comer:

Bom Prato: Confira o endereço de todas as unidades
Polo Norte: Galeria do Rock (Avenida São João, 439), loja 136
Yakissoba: Rua Conselheiro Rodrigues Alves ~ próximo à estação Ana Rosa
Estomazil: Em qualquer farmácia

Se você tem alguma sugestão de lugar ruim e barato, deixe aí nos comentários que ela será levada em conta.

  • Raquel Linhares

    Na minha universidade, repleta de estabelecimentos gastronômicos tão louváveis quanto os que você tem nos apresentado, havia um quiosque chinês também, que chamávamos carinhosa e nada criativamente de “China”.

    No China, haviam salgados diversos e sucos das mais variadas cores, mas independente de qual iguaria você apontasse e perguntasse “tem de que?”, a resposta seria sempre a mesma: “Cáne. Quezo. Flango Catupily”.

    Dizem quem um dia após um jovem faminto realizar esta pergunta, um pombo pousou no balcão. Os donos do estabelecimento, prezando pela higiene e apresentação do local prontamente espantaram o animal fazendo movimentos bruscos com o braço e gritando: “SAI FLANGO!”

    Não fosse suficiente, as más línguas dizem que ele ainda adicionou: “Não vai fazer catupily no balcão”.

    • hahaha…

      uns amigos tinham me indicado um chinês na USP, mas parece que ele não existe mais…
      ou então o labirinto de corredores que levavam até ele se perdeu para sempre.
      mas passa o endereço desse chinês que ele me chamou a atenção!

      • Raquel Linhares

        Para chegar lá é fácil:

        1 – Dirija-se ao aeroporto mais próximo
        2 – Embarque com destino ao Rio de Janeiro, aeroporto do Galeão
        3 – Pegue o ônibus 761-D (Charitas) e peça para o cobrador te avisar quando estiver em frente ao Centro de Tecnologia (CT) na UFRJ. Não se incomode com a aparente falta de educação ao responder ou importância que ele dará pra você no trajeto.

        Já no CT, você verá inúmeras opções gastronômicas, como o Italian Tutti, apelidado de “Sprobreto”, o “Yakisobra” e o Dejectus, ops, Projectus. No bloco da Química, pergunte pelo restaurante conhecido pela alcunha de “Sujo”.

        Infelizmente o China teve suas portas fechadas em 2010. Não pela Vigilância sanitária como das outras vezes, mas sim pela própria reitoria da UFRJ que demoliu o quiosque por se tratar de uma construção irregular.

        Pegar Salmonela tudo bem, mas daí erguer o quiosque em local irregular já não dá, né?

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