Quem foi Guy Fawkes?

Texto originalmente publicado no site “Papo de Homem” em 28 de junho de 2013.
http://papodehomem.com.br/guy-fawkes-homens-que-voce-deveria-conhecer-40/

Na história criada por Alan Moore e ilustrada por David Lloyd (transformada posteriormente em um ótimo filme), o protagonista usa uma máscara baseada numa figura histórica do século XVII. Pelo contexto do enredo, a face mascarada ficou popularmente conhecida como símbolo de revolta do povo, usada para representar o levante da população perante um governo. Assim, a história de “V de Vingança” acabou endeusando a figura de Guy Fawkes. Mas antes de sair por aí com uma máscara de uma personalidade histórica, seria melhor conhecer a história desse terrorista católico extremista, que, se não tivesse falhado com seu plano, teria destruído em 1605 não só o parlamento inglês, mas tudo ao redor num raio de até 490 metros.

Retrato de Guy Fawkes

Retrato de Guy Fawkes

Guy Fawkes nasceu em 1570, em York. Seu pai morreu quando ele tinha apenas oito anos. Anos depois, sua mãe casou-se de novo com um católico fervoroso, que não aceitava a religião anglicana na Inglaterra. Por influência do padrasto, Fawkes converteu-se ao catolicismo e deixou a Inglaterra para lutar pela Espanha Católica durante a Guerra dos oitenta anos, nos países baixos. Nesse período de guerra, sob o nome de Guido Fawkes, se tornou especialista em explosivos. Ainda nessa época, participou de uma tentativa frustrada de restaurar o catolicismo no Reino Unido. Foi quando conheceu Thomas Wintour, um dos personagens que também participaria da chamada “Conspiração da Pólvora”.

 A Conspiração da Pólvora

Em 1604, já de volta à Inglaterra, Wintour apresentou Fawkes a Robert Catesby, líder de um grupo de católicos ingleses e autor da idéia de explodir o parlamento. Fawkes era apenas o encarregado da pólvora, uma peça do plano terrorista de Catesby, que não tinha nenhuma motivação nobre, simplesmente religiosa.

A idéia de Catesby era assassinar o Rei protestante James I, e substituí-lo por sua filha Elizabeth, terceira na linha de sucessão monárquica. Para isso, eles levaram aos subterrâneos do parlamento 36 barris, contendo mais de 800 quilos de pólvora, que seriam detonados no dia 05 de novembro de 1605, explodindo os prédios do parlamento, da casa dos lordes ingleses e matando diversos opositores políticos. Também fazia parte do plano o sequestro da princesa, para a posterior restauração da monarquia de forma católica. A Fawkes caberia a responsabilidade de acender o pavio e fugir pelo Tâmisa.

O problema do plano é que o parlamento inglês também era freqüentado por importantes políticos católicos (portanto, na visão golpista, inocentes). Algumas cartas anônimas foram então enviadas às casas desses políticos solicitando que se ausentassem das sessões no dia que o plano seria executado. A carta ainda vinha com recomendações de que fosse queimada logo depois de lida.

William Parker, o barão de Monteagle, foi um dos destinatários. Ao invés de seguir as ordens e ficar de boa, na miúda, o nobre barão levou a mensagem ao rei. Talvez tenha o feito por puro interesse, uma vez que fez questão em atribuir a descoberta do plano a si mesmo e tenha recebido até o final da vida uma polpuda recompensa financeira anual pela delatação, vinda do próprio rei.

Na madrugada entre os dias 04 e 05 de novembro, Fawkes foi preso pouco depois da meia-noite, deixando as adegas nos porões do parlamento, munido de fósforos e um relógio. Uma investigação mais profunda desmascarou o golpe, encontrando os barris de pólvora camuflados por madeira e cal. Guy Fawkes foi pego em flagrante e levado ao rei ao amanhecer.

Julgamento

John Johnson foi o pseudônimo usado por Fawkes durante o golpe e foi o nome que ele apresentou quando foi preso na torre de Londres. Após uma semana de tortura, deu o seu verdadeiro nome e a identidade de todos os envolvidos no caso, inclusive o do chefe, Robert Catesby. A sala aonde fora interrogado hoje em dia é conhecida como “Guy Fawkes Room”. A assinatura de sua confissão eram garranchos praticamente ilegíveis, o que mostra a brutalidade que deve ter ocorrido para a obtenção das informações. Além de religioso fanático e terrorista, Fawkes terminou a vida sendo também um cagüeta.

Oito envolvidos com o plano foram condenados à morte.

Os espetáculos de condenação de criminosos eram um show para a população na época. A morte de traidores da pátria era particularmente épica: primeiro o condenado era enforcado, de forma somente a perder o ar e não a quebrar o pescoço. Quando estivesse à beira da morte, era resgatado, reanimado, e teria os testículos cortados e queimados em frente de seus olhos. Depois, o peito era aberto, o coração retirado e atirado na sua própria cara (nos tempos de hoje é difícil conceber que é possível jogar o coração da pessoa em sua própria cara sem estar em uma partida de Surgeon Simulator). Em seguida, a pessoa (obviamente já morta) tinha os seus membros amarrados a quatro cavalos que eram chicoteados para seguirem em direções opostas, até que o corpo estivesse esquartejado. As partes cortadas eram enviadas para toda a Inglaterra para servir de exemplo ao que acontecia com opositores do rei, enquanto a cabeça permaneceria exposta na Torre de Londres.

No dia 31 de janeiro de 1606, Fawkes e outros dois colegas de golpe (incluindo Thomas Wintour) foram executados. Guy Fawkes pediu o perdão do rei, que não lhe foi concedido. Num último gesto rebelde, Fawkes desvencilhou-se de seus guardas e pulou do palanque onde seria enforcado, se jogando de cabeça em uma escada, onde quebrou o pescoço e morreu, poupando a si próprio de uma sentença mais dolorida e tirando do público parte da diversão daquela fria terça-feira. Seu corpo ainda foi esquartejado e enviado aos quatro cantos do Reino Unido.

Legado

No ano seguinte ao fracasso, no mesmo dia 05 de novembro, de forma inteligentemente oportunista, o rei instituiu festividades para celebrar o fracasso da conspiração da pólvora. Fogueiras foram acesas em diversas praças públicas, na noite que hoje é conhecida como “Bonfire night” ou “Guy Fawkes night”. Até hoje Londres celebra o dia com espetáculos de fogos de artifício em toda a cidade (atualmente, ironicamente pagos pelo governo).

O poeminha “Remember, remember”, usado na história de “V de vingança”, foi astutamente editado, de forma a dar um sentido épico para o fato. A versão original, entretanto, parece um aviso a todos que tentem se rebelar contra o governo:

Remember, remember the fifth of November,
The gunpowder, treason and plot,
I know of no reason
Why gunpowder treason
Should ever be forgot
Guy Fawkes, Guy Fawkes, ’twas his intent
To blow up the King and Parliament.
Three score barrels of powder below,
Poor old England to overthrow;
By God’s providence he was catch’d
With a dark lantern and burning match.
Holloa boys, holloa boys, make the bells ring.
Holloa boys, holloa boys, God save the King!
Hip hip hoorah!

imagem: estadão

imagem: estadão

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Para assistir:

V for Vendetta, directed by Wachowski brothers