Paulo Velho vai ao médico

Eu não gosto de médicos. Nada particular contra a pessoa (ou a profissão) médica – exceto quanto à forma desleixada como eles cuidam de seus jalecos -, mas consultas médicas me dão preguiça: Senta na maca; tira a camisa; respira fundo; vou medir sua pressão; abre a boca; língua pra fora; é só uma virose.

Kermit's X Ray

Sente-se, Caco. O que eu vou lhe mostrar pode ser um choque.

Por isso que eu não costumo ir muito a médicos, apesar de mamãe insistir tanto. Acabo indo no médico só quando tenho algum ferimento grave ou uma febre brutal ou quando sou atacado por um urso ou quando meu coração me dá pontadas por mais de 3 meses sem razão aparente. Mesmo assim, essas poucas vezes que fui ao médico renderam alguma situações inusitadamente curiosas…

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25 de dezembro de… 1996? 1997? Sei lá… eu era um pequeno babaca naquele fatídico Natal. Como todos os anos, a família comemora o Natal na chácara de um tio em Mairiporã. Na aurora de minha vida era um local que eu freqüentava com uma freqüência bem maior, então nunca tivera nenhum problema com os pastores-alemães que por lá perambulavam soltos, desfrutando de sua liberdade canina. Aquele natal, após papai estacionar o carro saí correndo esbanjando aquela típica estúpida alegria pueril. Antes de conseguir adentrar o salão, Nero, o cão, atacou a pobre panturrilha do menino aqui, atirando-me ao duro chão.

Ouvi papai dar um grito ao pastor-alemão que vinha em minha direção, fazendo-o talvez perceber que tinha feito merda e recolher-se às suas pulgas (do cachorro, não do papai). Meu tio também veio correndo em minha direção, sem nem largar o espeto do churrasco que estava sendo preparado. Eu já havia me mijado todo de susto e ainda não tinha entendido direito a situação, mas em nenhum momento cheguei a chorar. Me pegaram no colo, me botaram num carro e chamaram minhas primas médicas que entraram no carro junto comigo e me levaram para o hospital.

Um hospital em um dia de natal é habitado por médicos extremamente mal-humorados, bêbados extremamente bêbados e feridos extremamente fodidos. Me enquadrando na última categoria, não tardei para ser atendido: Fui levado para uma sala onde uma simpática enfermeira limpou a carne de minha mordida com água, sabão e uma escova de lavar pedras. Depois me colocou numa maca de bruços e instruiu para que aguardássemos a doutorazinha. E lá ficamos eu, mamãe, papai, e minhas primas – uma formada em pediatria e outra ainda cursando a faculdade de medicina.

A médica entrou e começou a mexer com os materiais necessários para efetuar os procedimentos. Antes mesmo da doutora encostar em mim, minha prima mais velha fez alguma pergunta à doutora que parou o que estava fazendo e encarou minha prima:

– Você é médica por acaso?

– Sou sim, mas…

– Então faz você! – e rudemente a médica jogou os instrumentos na mesa e se retirou. Eu fiz o que qualquer um faria na minha situação: Fiquei desconfortavelmente deitado com meu músculo gastrocnêmio saltando por uma abertura em formato de meia-lua e não fiz nada. Alguém da minha família tomou alguma providência que, depois, chegou um bacana médico japonês que foi extremamente educado e costurou minha perna com a habilidade de um tecelão peruano.

Fiquei por um bom tempo trocando os curativos da perna e a cicatriz ainda existe. Nero, o cachorro, morreu uma semana depois. E, como todo mundo que me machuca, virou piada.

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Dermatologista: Tenho um problema capilar de queda de cabelo. A calvície, aliás, é um problema capilar tanto quanto a pobreza é um problema financeiro: A essência do problema é a falta dele.

Fui na dra. Conceição, dermatologista portuguesa do papai (o fato de papai ser calvo não ajuda muito na minha prévia reputação da doutorazinha – mas ela é uma boa profissional) e, após examinar meus ralos cabelos, a doutora recomendou um medicamento oral chamado Finasterida:

– Eu vou te receitar um medicamento aqui… o Finasterida. Você tem algum problema em tomar medicamento de uso oral, alguma coisa?

– Olha, doutora… – disse eu com um semblante preocupado – Vai ter alguma restrição quanto a bebidas alcóolicas?

– Bom, quanto a bebidas alcóolicas não tem restrição nenhuma não. Tem só uma pequena porcentagem de homens que relatam uma diminuição do apetite sexual nos primeiros meses de uso do medicamento…

– Ah, doutora! Então pode receitar! Eu só bebo, não como ninguém mesmo!

Ela riu.

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Antes de ir para Machu Picchu estava com um cardiologista marcado. No dia da consulta a secretária do médico me ligou para dizer que a consulta ia ser adiada porque o doutor estava internado com problemas de saúde. Duas semanas depois, o Dr. Setsuo faleceu. Espero que não tenha sido um problema cardíaco.

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Falando em “casa de ferreiro, espeto de pau”, não tem nada mais estranho do que uma nutricionista gorda. É a típica situação do “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”. A última vez que eu fui numa nutricionista, tive esse problema: A mulher precisava de uma nutricionista mais do que eu. O que eu precisava mesmo, como ela pôde perceber, era de um psicólogo:

– Você come frutas?

– Só na Caipiroska.

Dessa vez a médica não riu.

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E dentista que conversa? Meu dentista é até uma pessoa divertida, mas eu me sinto meio desconfortável conversando com alguém manipulando instrumentos dentro da minha boca:

– E aí, Paulo? Quando você vai viajar mesmo?

– Dia 09.

– Abre a boca. Tá chegando hein… [biz-biz-biiiiiiizzzzzzzzzz] Você já tem aonde ficar por lá?

– anhã… [biiiiiiizzzzzzzzzz]

– Você tem família lá, né?

– anhã, ua ie la uaul

– Eu tenho uma conhecida que virou condessa na Itália. [biiiiiiizzzzzzzzzz]

– ããã…

– Cospe. Isso… E os dentes do seu irmão? Como estão?

– Do meu irmão? Ué, não sei!

– Ah tá… Porque ele estava com um problema de tártaro a última vez que veio aqui…

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Eu sempre tremi. Meu problema de tremedeira é antigo e eu já tentei associar ele a várias coisas: stress, alcóol, frio… mas o negócio parece realmente aleatório. O problema é que tem dias que a tremedeira ataca forte sem motivo aparente e minha mão fica tremendo tanto que é até difícil segurar alguma coisa. Outro dia eu estava tremendo tanto que eu fui mijar e gozei. Problema sério.

Fui então num neurologista. Um cara muito competente, mas que atrasava a consulta em algumas horas, fazendo os pacientes esperarem numa nefasta sala de espera. Meio irônico que uma ida ao neurologista desse tanto nos nervos. Para ser paciente dele, tinha que ser realmente paciente.

Ele agendou algumas sessões de exames, inicialmente nas pernas, depois nos braços e, por fim, na cabeça. Os exames das pernas e braços eram basicamente iguais: Ele ligava eletrodos em meus membros e depois via como eles reagiam a certos estímulos: Inicialmente ele espetava umas agulhas no membro em testes, depois dava alguns choques e, por fim, espetava umas agulhas que davam choque. Coisa fina.

Pro exame de cabeça também ligou vários eletrodos na minha cabeça e ficava piscando luzes, fazendo eu ler coisas, dando diferentes estímulos.

Na consulta final, o doutor disse que eu não tinha Parkison ou qualquer doença do tipo. Minhas tremedeiras são algo natural e que nunca vai curar-se. Então que eu aprenda a conviver com ela. Eu sou literalmente um cara tremendo.

A única coisa que eu tenho, segundo ele, é uma tendência à depressão. Eu? Depressão? Eu sempre me achei o cara menos deprimido do mundo! Ouvir isso do médico foi chato: Fui pra casa e chorei a noite toda.

Reverse Voodoo

É... Acupuntura eu nunca fiz.