Tempos Interessantes

De todos as cidades que eu já visitei, a que eu acho mais parecida com São Paulo é Istanbul. Gigantesca, com uma população de 14 milhões de pessoas, um trânsito caótico, malha metroviária deficitária, um transporte público à base de carros e ônibus e uma população extremamente receptiva e jovem.

No final de maio, um pequeno grupo de pessoas organizou um protesto em Gezi Park, uma praça na região de Taksim, no centro da cidade. O protesto era pra preservação das árvores do parque, que ia passar por uma reformulação para a construção de um shopping center. Os manifestantes agiram de forma extremamente pacífica, simplesmente ocupando a praça e ficando em frente às máquinas que estavam lá para retirar as árvores centenárias. Não havia um veículo de imprensa sequer para acompanhar a manifestação.

A polícia agiu de forma violenta, usando canhões de água e spray de pimenta.

No dia seguinte, houve um novo protesto, dessa vez com mais pessoas. A polícia novamente reagiu violentamente.

E no outro dia o protesto foi maior ainda. As linhas de metrô que levavam a Taksim foram fechadas para dificultar a chegada dos manifestantes, mas a população de Istanbul se uniu, foram todos a pé e uma multidão se reuniu para ser novamente brutalmente contida pela polícia, que abusou das bombas de gás lacrimogênio, efeito moral e até ateou fogo na barraca dos manifestantes.

Depois disso, o protesto só cresceu e se espalhou. Agora ele não se limitava só à preservação da praça. Ele se transformou em uma gigantesca revolta contra o governo, extremamente conservador e historicamente religioso. Durante todo esse tempo, a imprensa turca não cobriu os protestos – o povo combinava os eventos e passavam as informações entre si usando simplesmente a internet e redes sociais. Durante um dos protestos, a CNN estava exibindo um documentário sobre pinguins, transformando o animal num dos símbolos da censura turca.

Os acontecimentos de Taksim foram simplesmente a fagulha que o povo precisava para se unir contra o governo.

Sempre achei Istanbul e São Paulo muito parecidos mesmo.

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Na pior em Londres

Era uma quinta-feira, dia 20 de outubro de 2011. Por volta das 20:30, sentei-me num dos bancos do aeroporto de Heathrow, e comecei a chorar. Eu nunca choro. Nem assistindo a The Green Mile, nem Titanic nem em qualquer filme romântico meloso em que o cachorro morre no final. Só me lembro de ter derramado lágrimas em Forrest Gump e Toy Story 3, e esse fato talvez ilustre melhor a terrível e desesperadora situação que eu me encontrava naquela noite.

Carregava comigo, além da roupa do corpo, uma mochila com duas bermudas, uma dezena de camisas e cuecas, uma camisa social, duas camisas de manga comprida e uma blusa velha. Devido a uma seqüência peculiar de eventos, minha mala que continha todas as roupas de frio, blusas, cachecóis e meias de lã – que seriam suficientes para suportar o gélido vindouro inverno europeu – estava em Paris, inacessível para mim pelos próximos dois meses ainda.

Naquele momento, Londres ainda era uma completa desconhecida; uma incógnita tentadora. E lá estava eu: sem emprego, sem dinheiro, sem roupas apropriadas para o clima, sem casa, sem amigos – exceto por dois (na época) conhecidos que viriam a salvar minha vida algumas vezes depois – e sem ter aonde dormir aquela noite.

Londres: o lugar mais legal do mundo
Londres: o lugar mais legal do mundo

Pedro

Eu ainda estava sentado ali, perdido, sem saber o que fazer, quando Pedro me ligou. Conheci Pedro oito meses antes, na parte marroquina do deserto do Sahara. Paulista, são-paulino, passou um tempo estudando em Madrid e já estava há algum tempo morando, trabalhando e estudando em Londres. Já tinha sido garçom de uma churrascaria típica brasileira e barman de um pub. Naquela mesma quinta-feira ele estava sendo despejado do quarto onde morava e também não tinha aonde dormir aquela noite. Ele providenciou, então, duas reservas de última hora em um hostel relativamente barato (pelos padrões de Londres) e relativamente mequetrefe (pelos padrões de hostel); perto de Russel Square. Pelo menos por aquela noite, era lá que eu ia ficar.

Algumas horas depois, na sala de convivência do hostel, enquanto tomávamos uma New Castle, Pedro me passava todos os contatos que ele tinha com landlords (o equivalente inglês ao proprietário do imóvel) e empresas que providenciam quartos para estudantes e estrangeiros. Há até grupos especializados em residências para brasileiros. No dia seguinte, de manhã, telefonei para quantos consegui, mas o período era de baixa oferta. Muitas pessoas chegam e saem no início e final de anos letivos e, por ser meio de semestre, era difícil achar algum lugar que fosse acessível e imediato.

Na sexta-feira mesmo fui fazer a primeira visita a um quarto que estava disponível na região de Hackney, a nordeste de Londres. Seria aquele quarto que eu adotaria como lar pelo próximo ano e já naquela noite dormiria por lá pela primeira vez.

Receita de picadinho de tartaruga em soneto

Tartarugas não tem o casco em formato de panela de sopa ao acaso...
Tartarugas não tem o casco em formato de panela de sopa ao acaso…

A receita é muito simples
só precisa de atenção
comece batendo no liquidificador
um litro de água com um limão

Adicione quatro dentes de alho
um temperinho a mais não faz mal
Então coloca pimenta do reino
E também uma pitada de sal.

Gerador de Caracteres

Took picture of naked guy
Took picture of naked guy
Saw big cat
Saw big cat

Pequena seleção estúpida de mini-contos pessoais empreendedores

Tem a máxima que diz “Trabalhe com algo que você goste e você não terá que trabalhar sequer um dia da sua vida”.

Eu a alteraria para “Trabalhe com algo que você goste e você deixará de gostar daquilo”.

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Pescando uma oportunidade...
Só o título deste texto daria pra abrir uma empresa

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Aí você abre uma empresa com seus amigos mais próximos. E percebe que quando sai com eles agora só fala da empresa. E um dia, num bar, decidem que vão falar de qualquer coisa, menos da empresa. E aí todos ficam sem assunto e levanta-se aquele silêncio constrangedor. E aí você não consegue lembrar do que vocês conversavam antes.

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Aí você começa a pensar que precisa aproveitar os bons momentos e o processo de aprendizagem: Aquele curto período enquanto seu negócio novo ainda não acabou, arruinando sua carreira, destruindo suas amizades e falindo sua família.

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Aí um amigo te liga oferecendo um projeto para desenvolvimento. E ele pergunta o valor da sua hora. E aí você passa o valor da sua hora. E ele reclama que está muito caro e você lembra ele que você tem anos de experiência, que tem experiência internacional na área, que fala cinco línguas e o escambau. E ele responde “Dane-se se você fala francês, alemão, japonês ou klingon! Eu só preciso que você fale Java!”.

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Aí alguém liga no seu celular querendo falar com a Tatiana. É engano. Então você aproveita que já tá falando com alguém e tenta vender o seu produto para a pessoa.

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Aí você gosta de escrever. Então você começa a escrever um livro – porque não, afinal?

Aí você começa o seu livro sem saber direito como ele vai terminar. E o livro vai indo muito bem e você já tá montando o final na sua cabeça. Aí você percebe que tá deturpando a personalidade dos seus personagens e percebe que para ter o final sensacional que pensou no meio do livro vai ter que alterar o começo. Aí você altera o começo. Aí você decide matar um personagem que era irrelevante, mas para dar mais impacto, você começa a adicionar capítulos dele numa preqüência da história. Aí vai tudo ficando mais confuso e todo mundo ficando com cada vez menos personalidade. Aí você vai se desanimando pra escrever, porque precisa revisar seu livro todo desde o começo. Aí você pára de escrever.

Aí você marca um horário na sua semana pra trabalhar no seu livro. Aí nesse horário você escreve sobre a história dos tomates e sobre os motivos pelo qual você não está trabalhando no seu livro. E seu livro tá lá, estagnado.

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Aí você explica pra sua mãe sobre esse monte de projeto que você está fazendo e é por isso que você anda tão ocupado. E sua mãe recomenda que você largue desse monte de idéia estúpida e vá procurar um emprego estável e decente, afinal é pra isso que você estudou nos últimos 20 anos e você tem capacidade de coisa melhor. E você responde que “porra, mãe, você podia ao menos torcer pros meus negócios darem certo” e ela responde que “eu estou torcendo, filho. Mas vai dar tudo errado. Tudo errado.”

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Aí você vai num cliente em potencial que seria importante para o bom andamento do seu negócio. Aí você se atrapalha todo e confunde o seu cliente com você mesmo. É. Foi isso.

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E um dia sua mãe entra na cozinha comentando sobre o garoto de 17 anos que ficou milionário vendendo um sistema pro Yahoo e complementa perguntando “Por que você não inventa alguma coisa que ninguém tenha inventado antes e fica milionário também?”…

Boa idéia, mãe. Boa idéia.

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Fail...

Too much

E, de repente, todo mundo gosta de salada…

O tomate é uma fruta (há controvérsias), da espécie Solanum lycopersicum e da mesma família do pimentão e da pimenta (que, supostamente, também seriam frutas). Devido ao aumento do preço nos últimos meses, o fruto, conhecido na Alemanha como “maçã do paraíso”, virou sensação nas redes sociais e na mídia. Afinal, depois que se transformou em sinal de status, todo mundo passou a gostar de salada.

Tomates! Não!
Tomates! Não!

Mas a história do tomate é muito mais ampla e interessante do que parece. Pra começar, não é só o preço que é venenoso: O caule e as folhas possuem glicoalcalóides, uma substância tóxica que causa fraqueza, confusão e pode levar ao coma e à morte.

Robert Johnson

A bem da verdade, durante muito tempo na América, acreditou-se que o tomate era mortalmente venenoso. Até o dia 26 de setembro de 1920, quando o Coronel Robert Gibbon Johnson, um cidadão honorário do condado de Salem, em New Jersey, subiu as escadarias da prefeitura e, na frente de um público que acredita-se ter chegado a milhares de pessoas, fez um ato de coragem desmedido para os padrões da época e comeu um tomate inteiro. Inteiro.

Consigo imaginar a sociedade conservadora tomatofóbica da época, abismada com a ousadia daquele rapaz, xingando muito nos pombos correios e postando revoltadas mensagens em muros com os dizeres “Robert Johnson não me representa”. Um camponês da época iria declarar “Aonde vai parar esta sociedade? Hoje comemos tomates e amanhã homens estarão fazendo sexo com outros homens!”

Evidentemente, o senhor Johnson não morreu (não naquele dia e não por causa de comer tomates – espero), e o povo (mesmo aquela parcela mais religiosa da população) começou a perceber que tomate não é venenoso e, mesmo que alguém não gostasse dele, ter outra pessoa comendo não afeta em nada a liberdade alheia, e continuaram suas vidinhas, agora com ketchups, bolonhesas e molhos de pizza presentes numa sociedade evidentemente mais feliz.

Paulo Velho procura trabalho

We can repair anything
We can repair anything

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O primeiro estágio que eu consegui foi uma daquelas péssimas vagas do CIEE. Era uma vaga pra extrair relatórios da equipe telemarketing da Caixa Econômica Federal, no estação Brás. Lembro que fui fazer a entrevista no dia do meu aniversário de 18 anos. Me fizeram umas perguntas, me mandaram pra fazer uma provinha um tanto quanto desafiadora (sem ironias) em Excel e depois mais algumas perguntas baseadas no resultado da prova.

Logo que cheguei percebi que aquele não era emprego pra mim. Detesto bancos e aquele ambiente cinza e chato nunca me agradou (e ainda não agrada). Porém eu fui contratado após o seguinte diálogo com a entrevistadora:

– Você quer trabalhar aqui?

– Não.

– E que dia você pode começar?

Fico imaginando se não querer trabalhar no lugar era pré-requisito pra trabalhar por lá… ou se ela sequer chegou a ouvir minha resposta.

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Não fiquei nem um mês nesse estágio. Na semana que eu entrei, eles trocaram todo o time de telemarketing por conta de fim de contrato. Como é empresa do governo, eles tinham que fazer uma licitação pra definir a próxima empresa. Como são funcionários públicos, a licitação demorou mais de um mês, então eu não cheguei a trabalhar de verdade.

Logo na primeira semana comecei a fazer testes, chegando 15 minutos atrasado, e depois, saindo 10 minutos mais cedo. E fui evoluindo até chegar uma hora atrasado e sair uma hora mais cedo. Tenho a impressão que, quando eu saí de lá, ninguém realmente percebeu que eu tinha chegado a trabalhar por lá.

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Leitor de Livraria

How to be black

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Aquela senhora devia já ter entrado na casa dos 40 anos. Usava sempre uma saia e os cabelos negros ligeiramente grisalhos sempre se encontravam em um coque atrás da cabeça. Todas as noites de quartas e sextas-feiras ia na livraria, na seção de Literatura Nacional e pegava um livro de contos e crônicas. Lia um ou outro de pé e, se achasse algum que lhe agradasse particularmente, sentava-se numa das confortáveis poltronas da livraria e lia mais alguns contos. Às vezes, gostava tanto de um livro que se dedicava a ele por algumas semanas, sem nunca comprar nenhum, porém.

Um dia, um vendedor a abordou:

– Boa noite, senhora. Já viu o novo livro do Luis Fernando Verissimo?

– Oi, desculpa?

– Luis Fernando Verissimo. Gosta dele, não? – e estendeu um livro na direção dela.

– Eu? – a mulher olhou o vendedor de olhos meio arregalados. Guardou as crônicas de Mário Prata de volta na estante e pegou o livro em mãos, com um olhar meio fascinado. – Gosto sim… Obrigado!

Nas próximas duas semanas, ela lia somente aquele livro em suas visitas à livraria. Na visita em que terminou de ler o livro, cruzou com o mesmo vendedor após guardá-lo de volta na prateleira. Não se conteve em dizer:

– Ótimo livro! Obrigado!

Ficaram amigos e na outra semana, o vendedor recomendou um do Millôr Fernandes também.

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Cinco idéias para o transporte público em São Paulo

Alguma iniciativa brotada sabe-se lá onde e difundida pelas redes sociais nas últimas semanas tenta espalhar na cabeça da população a suposta boa idéia que é ter o metrô de São Paulo funcionando 24 horas por dia.

O sistema de transporte público na cidade é fraco, deficiente, caro, lento e inefetivo. A malha metroviária é pequena, apesar do serviço ser muito bom. Ninguém discute que, para o sistema se tornar medíocre, muita coisa precisa melhorar.

Mas metrôs abertos 24 horas por dia não são uma solução e nem uma alternativa viável. É uma idéia utópica e impossível na atual situação.

Durante um projeto, já tive que passar boa parte de uma madrugada na estação Santa Cecília, linha vermelha. O trabalho não termina quando as portas da estação se fecham – muito pelo contrário. Uma legião de funcionários invade as estações para o trabalho de limpeza e manutenção das linhas. Um trem especial, chamado “esmerilhador” transita pelas linhas em baixa velocidade com a intenção de corrigir e prevenir deformidades na via. É um serviço de manutenção lento e necessário. (link: http://www.metro.sp.gov.br/tecnologia/manutencao/logistica.aspx)

Trem esmerilhador
Trem esmerilhador

Há um segundo aspecto: é REALMENTE necessário? Qual o índice de uso da linha verde numa terça-feira às 3h da manhã? Esse serviço extra geraria um custo que teria que ser repassado à população de alguma forma.

A guerra da edição

O autor preparou seu exército de caracteres. Letras, espaços e vírgulas, alinhados, enfileirados, como se formassem uma gigantesca parede de escudos. O campo de batalha estava formado, escrito e articulado, com parágrafos planejados e uma estratégia de combate de dar inveja a Sun Tzu.

O editor estava do outro lado, sozinho contra todos. Apesar do discurso de liberdade editorial, todos sabiam que ia ser uma luta difícil. A licença poética estava em jogo. Mesmo com a diferença numérica, a batalha seria dura e o editor não queria dar chances para o texto.

Começou matando um aposto. A canetada era esperada. As letras se uniram: o quilômetro se abreviou para salvar alguns caracteres; um adjetivo se excluiu em um auto-sacrifício por um colega menor e semelhante. O espaçamento se espremeu para parecer mais unido, mas mesmo assim o editor invadiu o texto, ignorando as sentenças bem articuladas. Ele prosseguiu com seu ataque: Quebrou uma linha de raciocínio, separou dois parágrafos e usou o veículo como argumento pra remover uma frase que não seguia seu pensamento.

O autor interferiu: Reclamou que o ontem não poderia substituir o ante-ontem só para salvar caracteres. O editor ameaçou trocar o ontem por hoje pra reduzir ainda mais. O autor cedeu. O editor se animou: Excluiu um paragráfo inteiro, cortou uma frase longa em três, moveu a introdução para o lugar da conclusão e a conclusão foi deletada.

O autor chorou ao ver o massacre. As palavras já começaram a ficar perdidas no meio da bagunça provocada pelo editor. Um advérbio bateu numa vírgula e ficou sem saber para onde ir. O próprio autor misericordiosamente retirou ele de cena. Desesperadamente, começou a jogar novos caracteres em campo, com esperança de salvar a idéia. Não era religioso, mas pensou em novas orações. Um novo sujeito apareceu para resgatar um predicado. O editor continuava excluindo. Separou idéias, removeu aspas, discordou de um depoimento.

A batalha estava perdida. O argumento desapareceu. A esperança era ao menos salvar a conclusão, para terminar com algum sentido. O editor foi impiedoso: Não restavam caracteres ao autor. “Eu preciso de um final decente! Tendes piedade!”, clamou o autor para o sentimentalismo. O editor recusou: “São as normas do veículo. Não há espaço.”. Os caracteres, cabisbaixos e serifados em Times New Roman não identificavam mais seus semelhantes. Até o título foi trocado. Numa última investida se apertaram para tentar encaixar um final. O editor não cedeu e o texto fic