O caminho para Abkhazia

Em julho de 2016, estive na Abkhazia para fazer minha primeira cobertura jornalística, na Copa de Futebol do Mundo, organizada pela CONIFA. A matéria final foi publicada na revista SuperInteressante de setembro/2016, edição 365. (link).

No começo da década de 90, após a dissolução da União Soviética, a Georgia conseguiu sua independência. Menor que o estado de Santa Catarina e localizada a leste do Mar Negro, fazendo fronteiras com a Rússia ao Norte, Turquia e Armênia ao Sul, Azerbaijão a Leste e banhado pelo Mar Negro ao Oeste, o país está em uma região aonde começa a ficar obscuro se estamos na Europa ou na Ásia.

As tensões entre Rússia e Georgia, entretanto, não cessaram com a independência. Em 2008, a crise diplomática entre os dois países explodiu em uma guerra, resultando em algumas centenas de mortos (ambos os lados divergem entre os números) e alguns milhares de refugiados – em sua maioria, georgianos que foram expulsos das regiões separatistas.

A Abkhazia é uma dessas regiões. Ligeiramente maior do que o Distrito Federal e com uma população de pouco mais de 200.000 habitantes, ela virou um popular destino de turistas da classe média russa, que fazem uso de seus resorts e praias. A Abkhazia declarou sua própria independência em 1999, apesar dela só ser reconhecida como um país por Rússia, Nicaragua, Venezuela, Nauru (uma ilha da Micronésia), e dois outros territórios separatistas: Transnistria na Moldova e South Odéssia (a outra região separatista da própria Georgia).

outdoor em Sukhumi anuncia o evento

outdoor em Sukhumi anuncia o evento

A Copa do Mundo de não países
“Cara, vai ter uma Copa do Mundo de não-países”, disse Alain, quando eu fui visitá-lo em Köln em janeiro de 2016. Oras, esse é exatamente o tipo de evento que me chama a atenção. Entrei no site oficial do evento (http://worldfootballcup.org/) atrás de tickets, mas me deparei com uma mensagem dizendo que os tickets online só seriam disponibilizados posteriormente (no final nunca foi possível comprá-los pela internet). Havia porém um link para “media accreditation”, o qual eu fui petulante o bastante para clicar e enviar uma requisição. Foi assim, depois de convencer a organização que eu era um jornalista freelancer que eu consegui uma credencial de imprensa pela primeira vez em minha vida.

Não tive alternativa senão começar a planejar a melhor forma de chegar à Abkhazia. Porém não é uma tarefa tão simples. O aeroporto de Sukhumi, único público do país, não recebe muitos vôos internacionais e as fronteiras são complicadas de ultrapassar. Nem a internet ajudou nessa tarefa: não é um destino turístico muito popular e raríssimas páginas exibiam dicas em outras línguas que não fossem russo.

Há duas formas de chegar na Abkhazia: pelo norte, chegando ao aeroporto de Sochi, na Rússia, e cruzando a fronteira a partir da cidade de Adler; ou pelo sul, entrando a partir da Georgia. O detalhe é que, por não reconhecer a fronteira com a Rússia, os viajantes que entram a partir do norte estão cruzando ilegalmente as bordas da Georgia e podem ser presos se tentarem cruzar a fronteira sul, saindo de Abkhazia. Assim, seria impossível fazer o caminho Rússia – Abkhazia – Georgia.

Comprei então passagens para chegar em Tibilisi, capital georgiana e voltar a partir de Sochi, aeroporto mais próximo da Abkhazia, entrando pela Georgia e saindo pela Rússia. Como tenho dois passaportes de duas nacionalidades distintas, poderia também usar o português para entrar na Georgia e o brasileiro para entrar na Rússia (brasileiros não necessitam de visto para entrar na Rússia, ao contrário dos membros da União Européia), o que provavelmente me livraria de problemas em ambos os países.

Georgia
Era por volta das 4h30 da manhã de uma sexta-feira quando cheguei no aeroporto internacional de Tibilisi, depois de uma viagem que envolveu uma conexão no belíssimo aeroporto de Istanbul. Saí do avião, tive meu passaporte português cuidadosamente investigado por uma guarda alfandegária que, após alguns minutos conferindo se a criatura barbuda na foto (eu vivia em uma época muçulmana quando tirei aquele passaporte) era a mesma criatura acabada de sono que se prostrava diante dela.

Qualquer que fosse a conclusão obtida, tive meu passaporte carimbado e entrei no sagüão do aeroporto, aonde procurei um canto para dormir, sabendo que não teria um hotel para repousar naquele primeiro dia. A vida me obrigou a desenvolver técnicas altamente eficazes para dormir em aeroportos; assim, cochilei por algumas horas e, suficientemente revigorado, saí para pegar o ônibus público que me levou ao centro da cidade, passando pela “avenida Presidente George W. Bush”, que possui inclusive fotos do ex-presidente americano.

O primeiro dia foi de turismo na capital da Georgia, conhecendo casas construídas na beira de desfiladeiros para poder ter sua área útil aumentada sem a necessidade de pagar impostos em terrenos maiores e construções modernas lado a lado com igrejas ortodoxas. No meio da tarde, peguei um outro ônibus que me levou até Rustavi, para conhecer o que é uma cidade tipicamente georgiana, longe de centros turísticos.
Rustavi foi construída como um grande centro industrial durante a era soviética. Após a Segunda Guerra, a cidade era parte do plano de industrialização de Joseph Stalin, que trouxe trabalhadores de todas as regiões do país para atuar na metalúrgica local, que processava ferro do vizinho Azerbaijão. A dissolução da União Soviética, porém, foi um duro golpe para os moradores de Rustavi e, após ter a metalúrgica fechada, 65% da população ficou desempregada. Hoje, Rustavi é uma cidade abandonada, um reflexo do fim do domínio russo: ela começa com seqüências intermináveis de prédios de arquitetura soviética: quadrados, grandes, sujos e parcialmente abandonados. Ela segue por um estreito rio e passa por um minúsculo centro de cidade que visivelmente perdeu há muito seu charme. O resto da cidade é baseado em construções abandonadas, galpões vazios, fábricas fechadas.

Aproveitei a minha passagem pela cidade para fugir dos restaurantes turísticos da capital. Entrei em um bar aonde tive a sorte de encontrar uma atendente que falava um mínimo possível de inglês. “Eu gostaria de comer qualquer coisa que fosse típica da Georgia”, pedi. Depois de alguns minutos, enquanto eu bebia uma cerveja, ela me entregou uma sacola de mercado com um pão redondo dentro. Tentei disfarçar o desapontamento com minha refeição e fiquei no canto do bar, tomando cerveja e comendo pão direto da sacola.
Voltei a Tibilisi para pegar o trem noturno que me levaria a Zugdidi, próximo à borda com a Abkhazia, aonde eu iria tentar cruzar a fronteira. A noite passou rápido e eu dormi o sono dos justos no sacolejante trem.

A fronteira
Pela manhã, finalmente chegando em Zugdidi, negociei o preço da passagem para um táxi me levar pelos pouco mais de 10km até a fronteira. O carro seguiu por estradas asfaltadas em uma região tipicamente rural, desviando de um ou dois porcos pelo caminho. A estrada terminava abruptamente em uma cancela, aonde carro nenhum podia seguir adiante. Paguei ao taxista o valor de aproximadamente 10 laris (R$16), que era tudo o que me restava de dinheiros georgianos.

Uma pequena casinha ficava do lado direito, com uma janela de frente para a estrada, aonde três turistas, de bermudas e pequenas mochilas eram atendidos pelo guarda de fronteira. Três ou quatro cachorros de rua corriam pra lá e pra cá, brincando, cheirando seus próprios rabos e se mordendo, compartilhando raiva.

Aproximei-me dos turistas e fiquei pacientemente aguardando a minha vez de ser atendido. Eram dois rapazes e uma moça, os três americanos; a moça, porém, parecia falar um pouco de georgiano. Eles pareciam sofrer uma dura sabatina:

– Quem é o presidente dos Estados Unidos? – perguntou o guarda,
– O quê? – um dos rapazes parecia não entender a razão da pergunta.
– Quem é o presidente dos Estados Unidos?
– Hum. Barack Obama.

O guarda fez uma cara de satisfação e voltou a examinar os passaportes. Olhei para meu passaporte roxo, com o brasão lusitano na capa. E se ele perguntasse do presidente de Portugal? Era o Passos Coelho? Não tinha certeza, já fazia tempo que eu não me ligava em política portuguesa. Eu poderia falar que era brasileiro. Mas e se ele perguntasse do presidente do Brasil? É pior: Eu já estava há umas vinte horas sem internet, e poderia ter mudado de novo nesse período. Eu ainda revisava mentalmente diálogos quando os americanos tiveram sua passagem liberada. Aproximei-me da janela e entreguei meu passaporte.

Se fizessem o filme da minha vida, esse guarda de fronteira seria interpretado pelo Robert De Niro em uma participação especial. Ele fumava um cigarro, usando uma lata de amendoins como cinzeiro. A casinha era pequena, com um rádio velho e papéis espalhados em cima da mesa. Uma pistola repousava despretensiosamente na janela oposta.

– Portugália! – exclamou ele alegremente quando apresentei meu passaporte – Ronaldo!

Era isso. Como brasileiro já estava acostumado a ouvir nomes de jogadores de futebol quando dizia minha identidade, mas como português aquilo era novidade. Eu não sei porque as pessoas fazem isso. Segurei meu ímpeto de responder “Georgia! Stalin!” e apenas repeti “Ronaldo!”. A verdade é que o resultado de uma conversa iniciada com uma celebridade desportiva nacional costuma ser positivo e o guarda nem pediu para ver meu visto de entrada na Abkhazia. Apenas perguntou se eu o possuía e liberou minha passagem.

Dali era um percurso de cerca de 1km até os portões de entrada da Abkhazia. Carros não são permitidos a partir daquele ponto, porém há cavalos disponíveis para cumprir o trajeto. Como não era uma longa caminhada e eu estava sem dinheiro, comecei a andar com a companhia de três vacas. Há um outro posto militar no caminho, próximo de uma escultura de um revólver apontado para a Abkhazia com o cano dobrado em um nó, aonde dois soldados georgianos me observavam com atenção. Cruzei a ponte do rio Enguri e chegando do outro lado encontrei o portão da fronteira fechado.

Comecei a conversar com os três americanos que também esperavam em frente ao portão. Uma chuva leve começava a cair. Só havia nós quatro isolados naquele local e eu agradeci mentalmente ao monstro de espaguete por eles estarem ali e eu não me encontrar sozinho no final daquela triste ponte.

Demorou mais de uma hora para um gordo soldado soviético aparecer e, sem nenhuma pressa, começar a remover os diversos obstáculos da entrada do país (diversas barras de metal dispostas em asterisco e uma corrente de pregos) e finalmente abriu o portão. A essa altura algumas pessoas já chegavam também – habitantes locais com melhor conhecimento do horário de funcionamento da fronteira. Alguns carregavam grandes sacolas: Apesar de teoricamente fazerem parte do mesmo país, Georgia sofre um embargo da Abkhazia e não há relações comerciais entre as duas partes.

Um outro soldado soviético chegou até o portão, verificou nossos vistos e passaportes e apontou que seguíssemos por uma estrada que continha uma câmera de segurança a cada 50m. Ao fim, uma outra cabine de alfândega minúscula com uma janela de vidro escuro apontando para a rua fazia uma profunda inquisição aos visitantes. Do outro lado da rua, outra cabine similar cuidava de uma longa fila de pessoas tentando deixar a Abkhazia.

Os americanos foram os primeiros a serem atendidos. Passaram-se dez minutos e eles ainda estavam na cabine dando explicações sobre a visita quando um outro guarda se aproximou de mim e pediu para ver meus documentos. Apesar de ter saído da Georgia com o passaporte português, eu usava agora o passaporte brasileiro: graças ao BRICS, o cidadão do Brasil é isento de visto para entrar na Rússia e as mesmas regras se aplicavam à Abkhazia. Com meu passaporte em mãos, ele perguntou em um inglês enrolado:

– Você visita a Abkhazia a turismo?
– Não. Sou jornalista. – menti, mostrando minhas credenciais e a autorização do governo da Abkhazia para a cobertura do evento. – Vim cobrir a Copa do Mundo.
– Jornalista? – perguntou ele.
– Jornalista. – menti.
– E você vai escrever sobre futebol?
– Futebol. – menti de novo.

Ele me direcionou a outra cabine e rapidamente me liberou a passagem. Eu começava a sentir as vantagens e poderes de ser um jornalista credenciado.

Pressa
Mesmo não sendo oficialmente, a Abkhazia já age como um país independente. A língua não é a mesma da Georgia – o idioma oficial é o abkhazio, mas todos falam russo. Nem mesmo o fuso horário é o mesmo, seguindo o fuso horário da Rússia, detalhe que eu só fui descobrir no dia seguinte ao chegar com mais de uma hora de antecedência em uma coletiva de imprensa com o primeiro ministro.

Até a economia já é tratada independentemente da Georgia. Tendo total apoio da Rússia, rublos são a moeda oficial e, mesmo sabendo disso, decidi ser um imbecil e chegar do outro lado da fronteira sem um puto sequer. A cidade mais próxima da fronteira é Gali, a cerca de 8km e taxistas exploradores de turistas estavam querendo cobrar até 30€ pela viagem. Eu tentava negociar alguma forma de pegar uma das lotações sem ter dinheiro quando os americanos chegaram. Eles também reclamavam do abuso de cobrarem 40 dólares por um táxi. Oras, 8km não era tanto assim e decidimos ir andando. A estrada era asfaltada, mas o caminho era deserto e passava por casas em ruínas. Depois de quase 2km caminhando, um carro com um velho padre parou, perguntando algo em russo. “Gali”, dissemos, sem saber se era a resposta certa para a pergunta feita. Provavelmente sim, porque ele fez um gesto para que entrássemos no carro e, como nossa situação já era ruim o bastante, assim o fizemos.

De Gali, peguei um ônibus à capital, Sukhumi. A responsável pelo hotel aonde eu me hospedei na capital falava pouquíssimas palavras-chave em inglês: “room”, “bathroom”, “key”, “pay now”. O resto da comunicação foi feito porcamente através do Google Translate. Não que tenha sido um problema: eu praticamente não fiquei no hotel. Assim que cheguei, fui direto ao estádio Dynamo para uma entrevista que tinha marcada com Sascha Düerkop, secretário geral da ConIFA.

Sascha é alemão e se animou quando soube que eu morava em Berlim:

– Vou poder conversar em alemão com alguém, finalmente?
– Bom, podemos tentar. – respondi em alemão, da melhor forma que podia.
– É melhor falarmos em inglês mesmo – ele decidiu depois ver quão pífio era meu domínio da língua germânica.

Durante a entrevista, comentei que eu era um barão no principado de Sealand, um não-país localizado em uma plataforma abandonada entre a Inglaterra e a Bélgica.

– Sealand tentou aplicar para se tornar membro da ConIFA, – respondeu ele – porém teve sua aplicação negada.

Fiquei revoltadíssimo. Imediatamente comecei a imaginar em criar minha própria confederação de futebol, para permitir campeonatos entre os não-países que forma negados pela ConIFA. Mantive, porém, o profissionalismo do cargo ao qual eu não possuo e me limitei a meu não-trabalho de jornalista.

(a entrevista completa está aqui: http://blog.paulovelho.com.br/entrevista-com-sascha-duerkop/)

A verdade é que eu não sou jornalista. Não possuo treinamento e não possuo experiência e foi apenas por um misto de malandragem, destreza e sorte que eu consegui a credencial de imprensa. Me senti uma criança brincando de profissão. Quando me deram a credencial, eu ganhei imediatamente livre acesso a todas as áreas do estádio, incluindo o campo, as salas de imprensa, entrada e saída liberadas e participação em coletivas. Eu usava meu novo poder para acessar todos os pontos do estádio. As únicas palavras que eu aprendi a falar em russo foram “cerveja”, “obrigado” e “imprensa” – não precisei aprender a pedir licença, apenas mostrava a credencial e saía dizendo “pressa, pressa, pressa!” até me deixarem passar, dando carteiradas tal qual uma blogueira da Capricho.

O estádio se localizava próximo ao centro da capital Sukhumi. Dois setores de arquibancada se estendiam, um de cada lado do campo., Um grande muro residencial se erguia atrás de um dos gols e uma grade com visão direto da rua do outro lado. A grama era sintética e tudo parecia moderno e bem cuidado. Do campo também era possível ver as ruínas do prédio do governo da Abkhazia, parcialmente destruído durante a batalha de Sukhumi em 1992, quando a Georgia tentou retomar controle sobre o território. Hoje a vegetação aos poucos vai tomando conta dos andares inferiores e o prédio está aberto e completamente abandonado.

Como parte do trabalho jornalístico, estive na sala de imprensa no dia seguinte para acompanhar a coletiva de imprensa com Artur Mikvabia, primeiro ministro da Abkhazia. Diante da importância do convidado e de meu amadorismo profissional, tentei passar o mais desapercebido possível, cedendo lugares para os jornalistas russos que anotavam freneticamente cada palavra que dizia o oficial. Fiquei então de pé, no fundo da sala, do lado da porta. Depois de ter alternado algumas vezes o apoio de meu peso em cada perna, me recostei na parede. Nesse processo, acabei encostando no interruptor e apagando todas as luzes da sala, atraindo todos os olhares para mim, estabanadamente tentando acender a luz de novo e recebendo um olhar raivoso de uma assessora de imprensa do estádio e dos seguranças presidenciais.

A noite
Nos jogos de sábado, Panjab venceu o confronto contra Padânia e Abkhazia ganhou de Northern Cyprus, ambos se classificando para a final, que aconteceria já no dia seguinte, domingo.

Horas antes da grande final começar, já era possível ver que esse seria um grande evento: carros chegavam de outras cidades e já era difícil encontrar lugares para estacionar, mesmo a uma certa distância dos arredores do estádio. Uma multidão se amontoava em torno dos portões e era difícil até me aproximar da entrada. Dei a volta pela entrada principal, andando pelo meio da rua tomada de pessoas e chamei a atenção de um guarda através de uma grade mostrando minha poderosa credencial de imprensa. Ele fez um gesto para que eu pulasse a grade e, com uma imensa falta de destreza, subi a pequena mureta e pulei o muro, entrando no estádio pelo portão principal – naquele momento reservado somente à autoridades. Uma outra coletiva de imprensa acontecia, desta vez com o ministro de defesa do país e, dessa vez me mantive longe de interruptores. Segundo ele, o público estimado para a partida, já horas antes do apito inicial era de 8000 pessoas, um grande feito para uma cidade de 60000 habitantes e para um estádio com capacidade de 4600 torcedores.

Foi possível entender melhor a lotação quando, em companhia dos demais jornalistas, descemos para o campo. As arquibancadas estavam completamente lotadas, incluindo o espaço das escadas. Torcedores subiam nos muros atrás dos gols e nas barras de ferro que sustentavam a pequena cobertura das arquibancadas. Pessoas se espremiam nas frestas da rua tentando ver o campo e, aos poucos, iam entrando também nos arredores do gramado. Uma multidão de seguranças fazia a proteção do campo, como um cordão humano. Um helicóptero militar passou por cima do gramado levando a nobre flâmula nacional.

Os dois times entraram em campo e se perfilaram para as execuçõs dos hinos nacionais. O hino do Panjab foi o primeiro: uma música eletrônica tocada em um arquivo de baixa qualidade, cheio de ruído. Para o hino da Abkhazia, os jogadores se viraram ao nobre pendão da esperança que tremulava no poste ao lado do campo. Os torcedores se levantaram nas arquibancadas e até mesmo aqueles que sentavam-se nos muros ao redor do campo deram um jeito de se equilibrar de pé para apreciar o nobre cântico nacional.

O juiz de Northern Cyprus deu o apito inicial e a peleja iniciou-se. E os deuses do futebol estavam particularmente inspirados para aquela partida.

O primeiro gol só foi marcado aos 12’’ do segundo tempo e pelo time visitante, trazendo um momentâneo silêncio à atônita torcida. A partir daí, o jogo se tornou emocionante, com um time da Abkhazia jogando com raça e desespero e uma seleção do Panjab que valorizava cada segundo de partida. A dedicação dos jogadores abkhazios era tocante e foi recompensada aos 43’’ do segundo tempo, com um gol feio, chorado, mas que levou o estádio à loucura. Até mesmo alguns seguranças responsáveis por conter a invasão do campo não se contiveram e invadiram o gramado de felicidade, trazendo ao gramado a figura do ministro da defesa, enfurecido, empurrando pessoas para a lateral do campo e tentando reestabelecer a ordem.

Inevitavelmente, a disputa terminou nos penales. Os dois times converteram as primeiras cobranças, porém a Abkhazia mandou duas bolas na trave seguidas. Com três cobranças batidas, Panjab ganhava de 3×1 e os jogadores se continham para não comemorarem antes da hora, mostrando os dedos indicadores uns para os outros, com a sinalização que eles ainda precisavam marcar um gol para selar a vitória. E a Abkhazia marcou seus dois gols. E defendeu as duas cobranças do Panjab. E, nas batidas individuais alternadas, defendeu mais uma. E o jogador profissional do Kokand 1912 (time mais velho do Usbequistão) Vladimir Argun foi quem converteu a última cobrança para o time da casa. E dessa vez não houve general soviético que contivesse a invasão da torcida para celebrar.

No meio da campo, apinhado de torcedores celebrando com bandeiras, encontrei Sascha Düerkop, perdido, encantado, com olhos arregalados, como uma criança da década de 90 que acabou de ganhar um Nintendo.

– Que noite! – foi o que consegui dizer a ele.

– Uau! Nem nos meus melhores sonhos eu imaginava algo assim.

Uma velhinha sorrindo enormemente andava pelo campo com uma bandeira da Abkhazia em uma mão e uma foto de Vladislav Ardzinba na outra, com a inscrição “nosso presidente”. Depois da guerra com a Georgia em 1994, Ardzinba assumiu uma posição de liderança no não-país e é hoje considerado o primeiro presidente da Abkhazia. Quando o campo foi novamente esvaziado para a cerimônia de premiação, a velhinha se recusou a sair e permaneceu com os membros da imprensa e não houve general que arrumasse uma forma de retirá-la de campo. No discurso de encerramento, o primeiro ministro falou à seu povo e, no meio da empolgação, decretou que a segunda-feira seria feriado nacional, como se os torcedores presentes precisassem de mais um motivo para celebrar.

E a celebração tomou toda a noite. Era possível ouvir carros buzinando na madrugada, e vê-los andando com a bandeira da Abkhazia no teto. A nós da imprensa, jogadores e organização do evento, uma outra festa estava marcada, cortesia da Conifa, com comida e goró liberado. Panjab e Somalilândia ainda se enfrentaram mais uma vez, desta vez na pista de dança, alternando passos e arrebatando palmas dos presentes. Um velhinho de cabelos e cavanhaque brancos apreciava a festa de longe. Eu sabia que ele era um enviado da FIFA para acompanhar o evento e era possível ver um olhar de satisfação em seu rosto.

Certamente a entidade máxima do futebol levaria aquele evento com bons olhos. Antes de sair, ainda vi um jogador do Panjab negociando com uma garçonete e levando consigo algumas garrafas de vodka fechadas.

Eram duas da manhã quando voltei ao hotel, encontrando o portão fechado. Não havia campainha e, após bater repetidamente no portão de ferro, percebi que ninguém iria me atender àquela hora da noite. Provavelmente as limitações de horário do hotel se perderam na fraca comunicação que a barreira lingüística se mostrou. Assim, duas da manhã, levemente embriagado em uma região remota de um não-país, não me restaram opções senão escalar porcamente o muro de aproximadamente dois metros e meio.

Antes de me jogar do outro lado estudei mentalmente se era melhor cair inicialmente com a perna direita, já que meu joelho esquerdo é problemático ou com a perna esquerda, para estragar logo ele de uma vez, mas preservar um joelho bom para a posteridade. Sem pensar muito, mirei em um pequeno arbusto e me joguei, deixando a decisão para ser tomada no caminho.

Persona non-grata
Uma última pendência restava na Abkhazia: eu devia me apresentar ao ministério de relações exteriores para realizar um cadastro de jornalista e retirada oficial do visto. Tentei comparecer no prédio indicado assim que cheguei em Sukhumi, no sábado, mas encontrei o local fechado e um segurança indicando com gestos que ele só abriria na segunda-feira. Assim, voltei no dia seguinte para resolver as últimas pendências burocráticas.

Na manhã de segunda, antes de partir em direção à Rússia, encontrei o prédio estranhamente vazio. O segurança me indicou com gestos que não havia ninguém trabalhando e eu imediatamente lembrei o porquê: bem na noite anterior o primeiro ministro, inebriado pela alegria da vitória, decretou feriado nacional.

Normalmente eu mandaria tudo às favas e simplesmente iria embora. Não fazia muito sentido eu me esforçar tanto para conseguir um visto para um país que eu já havia visitado, mas como eu já tinha a matéria vendida para a revista, achei que seria por bem fazer o cadastro para evitar que meu contratante tivesse problemas com o exército soviético. Usando minhas habilidades de mímica, tentei explicar a situação ao seu guarda, repetindo “pressa! pressa! pressa!” incessantemente. Ele me anotou um outro endereço e mandou que eu fosse lá.

Chegando, fui direcionado a uma pequena sala aonde entreguei meus documentos e minha credencial a um funcionário. Expliquei minha situação e ele cobrou 350 rublos russos (algo em torno de R$16) pelo visto da Abkhazia. Pelo que eu lembrava, como um brasileiro, o visto deveria ser gratuito, então não sei bem ao certo se o que aconteceu foi uma propina. Paguei em espécie, diretamente a ele (o que não soa realmente muito oficial) e ele anexou o visto ao meu passaporte.

– Quando você deixa o país?
– Hoje.
– Você vai voltar para a Georgia?
– Não. Vou para a Rússia.
– Mas você precisa voltar para a Georgia para fechar seu visto.
– Hein?
– Seu visto da Georgia vai permanecer aberto e eles vão abrir um processo civil contra você. Eles não têm como saber que você deixou o país e você vai estar constando como ilegal. Pode te gerar problemas no futuro.
– E como eu faço pra fechar?
– Só no aeroporto de Tibilisi, saindo do país.
– Ah… – disse eu, olhando pra ele e não disse mais nada.
– Não é problema nenhum para a Abkhazia. Nem pra Rússia. Só para a Georgia.
– Certo. Obrigado. – respondi, pegando de volta meu passaporte e saindo. Voltar para Tibilisi estava fora de cogitação para mim, então simplesmente decidi ignorar a situação e adicionar a Georgia na minha lista de países que eu nunca mais poderei visitar.

Peguei um ônibus em direção a uma minúscula cidade próxima à fronteira russa. De lá, iria cruzar a fronteira a pé. No final o visto oficial se mostrou realmente necessário, uma vez que eles o examinaram cuidadosamente na saída do país. Atravessei a ponte que divide Rússia e Abkhazia e passei por uma nova alfândega ao entrar na Rússia. Meu passaporte foi cuidadosamente examinado e por fim um oficial se aproximou de mim e pediu para acompanhá-lo a uma salinha. Lá sentei em uma mesa em frente a um guarda que começou a digitar freneticamente no computador. Uma outra guarda, de cabelos pretos encaracolados e um olhar como duas ameixas maduras colhidas no solstício do verão do mais belo pomar de ameixas do Chile chegou na sala e sentou-se também de frente para mim.

– Você trabalha com o quê? – ela perguntou.
– Sou jornalista. – menti, sem perceber que mentia. Eu passei por dois dias brincando na profissão e o cargo me abria facilmente tantos acessos que inconscientemente, eu estava começando a abusar do poder que o trabalho me proporcionava. Expliquei para ela sobre a Copa do Mundo e que entrava na Rússia apenas para pegar um avião de volta à Alemanha.
– E você vai ficar em Sochi?
– Sim. Vou aproveitar e passar um dia para conhecer a cidade.

Enquanto conversávamos, o outro guarda folheava meu passaporte e começou a ler em voz altas os vistos anexados “Zâmbia, Zimbabwe, Rwanda, Kenya”.

Da, on zhurnalist”, respondeu a outra guarda, e mesmo não sabendo russo, eu havia entendido a frase e imaginei que minha profissão fictícia estava uma última vez salvando minha viagem.

– Você vai ter que esperar aqui um pouco que já te liberamos. Mas não se preocupa que está tudo certo com você. – disse a guarda antes de sair, terminando a frase com um lindo sorriso soviético que me deu tranqüilidade suficiente para andar em brasa ardente, se fosse o caso.

Eventualmente fui liberado e segui até Sochi. A cidade ficou particularmente famosa por sediar os jogos olímpicos de inverno em 2014, mas pelos motivos errados. Ainda pude apreciar os estandes populares de tiro russos e o legado olímpico, que se baseia em geladeiras da Coca-Cola tematicamente adesivadas com o evento e piadas de twitter.

Por fim, ao sair da Rússia, tive que prestar contas aos guardas do aeroporto de Moscou
Fui retido em uma salinha aonde guardas insistiam que eu mostrasse meu ticket de entrada no país:
– Como você entrou na Rússia?
– Andando. Vim pela Abkhazia.
– Você não tem guardado nenhuma passagem da sua entrada no país?
– Não. Eu vim andando.
– Nenhum ticket de avião ou de ônibus?
– Não. Eu vim andando.
– Então você não tem como provar como você entrou?
– …

Fiquei cerca de uma hora retido numa salinha. Mostrei minhas credenciais de imprensa e fotos de Abkhazia e de Sochi até que os guardas finalmente decidiram que não havia nada a fazer comigo a não ser me liberar pra ir embora da Rússia.

E eu larguei a vida de jornalista e voltei pro meu emprego de verdade…

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Revista SuperInteressante:

A Copa dos Separatistas, minha matéria sobre o evento, publicada na edição 365 – setembro/2016

Entrevista com Sascha Duerkop