Entrevista com Sascha Düerkop

Em julho de 2016, estive na Abkhazia para fazer minha primeira cobertura jornalística, na Copa de Futebol do Mundo, organizada pela CONIFA. A matéria final foi publicada na revista SuperInteressante de setembro/2016, edição 365. (link).

entrada dos jogadores na grande final

Na ocasião, como jornalista amador, consegui fazer uma entrevista com o secretário geral da CONIFA, o alemão Sascha Düerkop. “Ah, você mora em Berlim! Vou finalmente poder conversar com alguém na minha língua materna?” exclamou ele, com felicidade, ao me encontrar pela primeira vez. Mas não. Meu domínio da língua germânica ainda é pior do que minhas capacidades jornalísticas, então a entrevista ocorreu em inglês mesmo, na tarde de um sábado, na sala de imprensa do estádio de Sukhumi durante o período de intervalo entre dois jogos.

Sascha foi extremamente simpático e atencioso e muito da entrevista pôde ser aproveitado na matéria final. A seguir, a entrevista completa:

Screen Shot 2016-08-10 at 17.08.35Entrevista com Sascha Düerkop
Secretário geral da CONIFA
(julho/2016)

PAULO VELHO: A FIFA possui 211 associações. Isso é muito mais do que a quantidade de países reconhecidos pela Nações Unidas. Isso é porque a FIFA tem diferentes definições sobre “o que é um país”. Como isso funciona para a CONIFA? O que a CONIFA considera um país?
SASCHA DÃœERKOP: Nosso principal conceito sobre esse assunto é perguntar às pessoas sobre com o quê elas se identificam. Então são os times que mandam as aplicações para nós e deve haver um certo grupo de pessoas representados por eles. Deve haver uma identificação entre um povo e nação que os representam na CONIFA. A FIFA possui regras diferentes da ONU, o Comitê Olímpico também tem regras diferentes, então realmente não há uma definição clara do que é um país ou uma nação. Então o que fazemos é perguntar aos times, perguntar às pessoas “Com o que vocês se identificam? O que vocês sentem que são em seus corações?” e eles podem formar uma seleção nacional e com isso enviar a inscrição para a CONIFA.

PV: E eu imagino que os jogadores que jogam para essas associações também devem possuir essa relação próxima com suas nações. A CONIFA possui alguma regra, como não permitir que a mesma pessoa jogue em mais de uma associação ou algo do tipo?
SD: Não. Este é um ponto bem interessante e nós ainda estamos procurando regras para isso. Porque na maioria das vezes, as nações ou países que nossos membros representam não podem ser baseados no passaporte dos jogadores, então é muito difícil lidar com isso. Mas todos os países membros, eles realmente cuidam deles mesmos, eles não querem simplesmente contratar alguém pra jogar para eles porque é uma identidade nacional muito forte e, é lógico, você quer ter apenas jogadores que realmente representam sua cultura e seu país jogando.

PV: Acredito que a paixão dos jogadores por seu país vale muito mais que qualquer outro espírito competitivo na competição, certo?
SD: É ambos… Quer dizer,… é um torneio de futebol e lógico que é sobre futebol mais do que outra coisa. Mas as motivações dos jogadores para jogarem… Eles não recebem salários, alguns jogadores têm que pagar por seu próprio ticket de avião para chegar aqui, então a motivação dos jogadores, da maioria dos jogadores, é para mostrar a si mesmo e sua cultura para o resto do mundo e representar o lugar que eles realmente acreditam que pertencem.

PV: Então, se eu montar um time da Freguesia do Ó, meu bairro no Brasil, com alguns amigos que se identificam com as mesmas coisas, quais as chances de competirmos na próxima competição da CONIFA?
SD: Primeiramente, todo mundo pode se inscrever e todo mundo pode tentar. O nível máximo de autoridade é sempre os próprios membros. Então, no fim nós perguntamos aos próprios membros “vocês acham que isto é algo que poderia ser representado por uma seleção nacional?” e eles podem dizer sim ou não. E nós tivemos um punhado de micro-nações que só existem na internet e eles foram rejeitados, mas todo o resto até agora foi aprovado como membro, não importa seu passado cultural ou político, porque esse não é um grande ponto para a maioria dos nossos membros.

PV: Eu perguntei porque eu também faço parte de uma micro-nação: eu sou Barão do Principado de Sealand.
SD: Sealand tentou se inscrever como membro mas foram rejeitados e a principal razão para isso é que não há uma população que se identifique com Sealand. Você com certeza se sente mais brasileiro do que “Sealander” e esse é o ponto principal. Porque eles podem emitir um passaporte para qualquer um queira um.

PV: Eu também senti falta de outra grande nação que ama futebol e não está presente, que é a Cataluña. Eles não mostraram interesse?
SD: Nós sentimos falta da Cataluña também. O principal ponto sobre a Cataluña é que eles têm algum acordo com a FIFA e com a Associação Espanhola de Futebol e eles podem disputar uma partida profissional por ano, que ocorre sempre no Natal ou perto do Natal. Então todo ano eles disputam essa única partida. Mas nós estamos em contato com a Federação de Futebol da Cataluña e esperamos que no futuro eles mandem um time para o torneio da CONIFA também, mas nós não chegamos lá ainda por conta deste acordo especial com a FIFA que eles não querem perder, porque eles enfrentam outros membros da FIFA.

PV: E como são as relações da CONIFA com a FIFA?
SD: Nós temos boas relações com eles e eles nos mandaram cartas aprovando nosso trabalho e realmente agradecendo o trabalho que estamos prestando para o desenvolvimento do futebol aonde eles não podem atuar. Aqui a FIFA não pode fazer nada, então eles realmente apreciam isso. Mas nós tivemos um último contato com eles em 2014, eles tiveram alguns problemas internos que nós não quisermos nos envolver de forma alguma.
Na verdade, eu devia ter ido numa conferência da FIFA em maio e finalmente encontrado com eles de novo, mas no final eu não pude comparecer por razões pessoais, mas nós continuaremos tentando estabelecer contato e nos aproximar deles de novo depois deste torneio. Principalmente porque nós estamos muito interessados em entender quem pode se juntar à FIFA porque este é um tema que não está muito claro para mim.

PV: Parece que para ser membro da FIFA, você deve ter uma associação de futebol e, se você for parte de um outro país, a associação do país ao qual você pertence deve aprovar sua inscrição.
SD: Sim, eu pensava a mesma coisa, mas aí Kosovo se inscreveu na FIFA e obviamente a Sérvia não aprovou isso… Esse é o ponto que nós realmente não entendemos: como Gibraltar pode fazer parte da FIFA mas a Isle of Man não pode, sendo que a Isle of Man possuem um nível de autonomia política muito maior. Então nós queremos estabelecer contato com a FIFA para aprender sobre o processo de aplicação porque é algo que não está escrito em lugar nenhum, como você pode ser um membro da FIFA?
Nós queremos entender como funciona porque há um punhado de países membros nossos que querem fazer parte da FIFA, como o Curdistão ou a própria Abkhazia e nós queremos ajudá-los a conseguir isso.

PV: Então vocês efetivamente ajudam os membros da CONIFA a virarem membros da FIFA?
SD: Está em nossa missão que nós queremos ajudar aqueles que são excluídos da FIFA a jogarem futebol e, como nós não temos realmente recursoso financeiros para criar programas de desenvolvimento aqui na Abkhazia, por exemplo, nós imaginamos que seria uma ajuda muito maior para eles se eles pudessem ser membros da FIFA, então obviamente nós apoiamos isso.

PV: E, politicamente falando, vocês já tiveram algum problema? Sediar a competição na Abkhazia não gerou nenhum problema com a Georgia, por exemplo?
SD: Nós tivemos problemas em competições anteriores. O Azerbaijão reclamou formalmente por Nagorno Karabakh jogar na Copa do Mundo de 2014; a Georgia reclamou por South Ossetia e Abkhazia jogarem em Felvidek, na Copa Européia e eles tiveram sucesso nisso porque esses países no final não conseguiram seus vistos. Mas este ano nós não tivemos nenhum problema do tipo. O Governo da Georgia entrou em contato com alguns times e os informou que é um crime pela lei georgiana entrar na Abkhazia a partir de Sochi. Os times simplesmente responderam “ok, nós entendemos isso” e foi isso. Não houve conseqüências desta vez.

PV: Eu imagino que deve ser um imenso esforço para organizar este evento em um país que está lutando por independência…
SD: Na verdade, nem tanto, porque nós tivemos total apoio do governo da Abkhazia. Então, uma vez estando aqui, é tudo muito fácil para nós trabalharmos. E eles são reconhecidos pela Rússia, então o embaixador em Moscou pôde emitir uma carta oficial pedindo ao governo russo para provêr vistos mais fáceis para Rússia e aí tudo estava feito. Nós pudemos pegar facilmente vistos para a Abkhazia também. Então foi bem mais fácil de organizar do que na Suécia [local da primeira copa do mundo, em 2014] porque lá nós tínhamos que lutar muito por cada visto. Para conseguir vistos para os abkhazios eu acho que tivemos que fazer umas quinhentas ligações para Moscou e no final o embaixador russo na Suécia teve que falar com o presidente da Suécia para conseguir os vistos de alguma forma… Muito, muito complicado.

PV: Conseguir os vistos então é a parte mais complicada?
SD: Sim, mas não desta vez. Desta vez foi tudo muito fácil.

PV: E como vocês escolhem o país sede para os torneios? Os países se inscrevem?
SD: Sim. Nós perguntamos aos nossos membros se eles estariam interessados em sediar e então nós mandamos para eles o formulário de aplicação, da mesma forma que na FIFA ou para os Jogos Olímpicos. Há alguns requerimentos, como haver wi-fi nos estádios, uma certa capacidade de público, coisas assim, detalhes organizacionais. Então nós coletamos as aplicações e revisamos junto com os países; da última vez foram dois, Nagorno Karabakh e Abkhazia, então nós fizemos visitas e checamos a infraestrutura e locações, acessibilidade dos locais, pontos de entrada e saída dos países e, baseados nisso, o comitê executivo toma uma decisão para onde ir.

PV: E a Copa da CONIFA ocorre com mais freqüência do que a Copa da FIFA. Por quê?
SD: Sim. Nós fazemos a cada dois anos, principalmente porque a maioria dos nossos membros não possuem recursos financeiros para viajarem muito para amistosos, então pra eles é muito difícil para, sei lá, pegar um vôo até a Isle of Man somente para jogar uma partida e então voar de volta para casa. Então é melhor para eles terem torneios e jogarem cinco partidas de uma vez. É por isso também que nós temos todas essas partidas para cada colocação [há partidas de disputa de 5° lugar, por exemplo], porque nós queremos que todos os times disputem no mínimo quatro partidas porque todos eles investiram uma boa quantia de dinheiro e um grande esforço e trabalho… Muitos dos times não são nem profissionais, então os jogadores têm que tirar dias do trabalho… então nós damos a eles esta plataforma a cada dois anos para que eles continuem ativos.

PV: Entendo. E eles também podem se mostrar para o mundo com mais freqüência.
SD: Exatamente.

PV: O Romani People [uma nação membro representando os povos ciganos] deveriam ter vindo disputar este torneio mas não vieram… O que aconteceu?
SD: Na verdade, eu não sei direito também. Nós recebemos um comunicado do Romani People que muitos dos jogadores dele só tinham documentos locais mas não possuíam passaportes internacionais e quando eles aplciaram pra eles, tiveram alguns problemas que eles não ficariam prontos a tempo. Então apenas seis ou sete jogadores tinham os passaportes internacionais… Mas eu não sei as razões por trás disso porque nós respondemos umas quatro semanas antes do início do torneio “desculpe, há muitas coisas diferentes acontecendo agora para lidarmos com isso; podemos, por favor, nos reunir depois da competição para discutir isso?”. Nós não sabemos ainda o que houve, mas vamos investigar depois da competição.

PV: Eles não possuem território, certo? São apenas um grupo de pessoas que se identificam com a mesma cultura.
SD: Isso, eles são uma nação sem estado e basicamente de todos os lugares do mundo, mas principalmente da Europa.

 

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Revista SuperInteressante:

A Copa dos Separatistas, minha mat̩ria sobre o evento, publicada na edi̤̣o 365 Рsetembro/2016