Demagogia nossa de cada dia

Roteiro pronto, discurso minuciosamente ensaiado… aliás, facilmente ensaiado: é sempre o mesmo, só trocando o locutor e o motivo. Faz parte de um circo hipócrita e demagogo que se repete a cada vez que uma notícia mais reverbante ataca a mídia…

Mas o foco aqui não vai ser as sensacionalistas novelas que as televisões e jornais criam. Eles não estão fazendo nada além de sua necessidade por sobrevivência: Precisam de ibope. E o mais sensacionalista é o que vai ganhar a atenção, em especial de um grupo imenso de demagogos que criticam enquanto simultaneamente assistem. A crítica é a chama que vai propagar o hype, que vai acender o ibope. É a base do sucesso do Big Brother: Ninguém pode gostar mas todos têm que assistir.

A demagogia nossa de cada dia é que alimenta essa grande indústria hipócrita, que nos cerca e nos entretém – e gostamos disso. É o discurso ecologicamente correto de quem apaga a luz na hora do planeta, mas deixa o ar condicionado ligado no hotel para encontrar o quarto fresquinho quando voltar.

A última bolacha do pacote

Demago-o-quê? Eu não sou isso não!

Demagogia ou talvez burrice daquele que reclama das enchentes nas grandes cidades, mas que joga lixo pela janela do carro ou do ônibus. Demagogia minha, que reclamo da baixa penetração do mercado de jogos no Brasil mas procuro o meu PlayStation destravado. Em minha defesa, posso dizer que nunca adquiri de forma ilegal um jogo que estivesse disponível no Steam, mas é uma defesa um tanto demagoga, uma vez que se eu pensar bem, talvez eu só siga pelo caminho mais correto por preguiça de fazer o errado. Mas é a indústria vencendo a demagogia: Eliminando nossas desculpas hipócritas que por tanto tempo usamos.

Demagogia das empresas verdes. Ecologicamente correto está na moda. O verde vende, porque nós gostamos de aliviar nossa própria consciência e arrumamos o jeito mais fácil de fazer isso. “Convence as paredes do quarto e dorme tranqüilo“. Protestamos através de tags no twitter e fingimos participar de grandes revoluções sem tirar nossos gordos traseiros do sofá.


Ah! George Carlin: humor de opinião – me faz pensar que o stand-up brasileiro ainda está engatinhando na demagogia (e faz isso em cima do muro)

Foi o twitter que me incentivou a escrever esse texto – que difere tanto do que eu costumo fazer por aqui, aliás. Eu me vi cercado por uma hipocrisia ainda mais forte: de opinião, de pessoas com argumentos fortes, piadas boas e textos bons. Do grupo de humoristas que eu sigo e invejo no twitter e, de repente, vejo todos criticando arduamente as piadas que eram feitas contra o maluco que invadiu uma escola e matou uma dezena. Humoristas esses que uma semana atrás faziam ofensivas e sensacionais piadas de humor negro com a morte de José Alencar e duas semanas atrás populavam minha timeline com estereotipadas piadas sobre o terremoto e tsunami que atingiu o Japão – e matou não uma dezena, mas mais de 12 mil pessoas. Eu não reclamo de ouvir esse tipo de crítica inconformada de minha mãe, que se ofende até quando eu faço piada sobre as habilidades desportivas de Wagner Montes ou sobre a visão de mundo de Ray Charles. Mas a demagogia por parte dos próprios humoristas, criticando o fato de se fazer piada sobre o assunto é realmente de cair o cu das calças.

Nardoni

Tudo é passível de piada? Eu acredito que sim.

É plenamente compreensível que alguns se sintam incomodados e não queiram fazer piadas por ter sido algo tão próximo. O que não é aceitável é essa demagogia: se a escola atacada fosse na Argentina ou na Rússia estes mesmos discursantes dos bons modos respeitosos estariam me fazendo rir alegremente – como amante do humor negro maldito que sou. Não me venham pregar o humor do bem. Eu sempre acreditei que tudo é motivo de piada e em partes por conta das piadas que a demagoga internet compartilha. Meus amigos já estão devidamente avisados: Quando eu morrer, quero um discurso no mínimo tão ofensivo (porque vai ser difícil ser tão genial) quanto o discurso de John Cleese no funeral de Graham Chapman.

YMCA

Não tem jeito: As melhores piadas te levam pro inferno.

Demagogia de quem reclama da falta de respeito de minhas piadas, mas não tem respeito para com os outros. Demagogia de quem vêm me dizer que eu roubei um respeito o qual a pessoa nunca teve, pois ela mesmo não se respeita. Demagogia minha em continuar com as piadas e fazer isso de forma bem trabalhada, generalizando e direcionando ao mesmo tempo, para poder continuar com a hipocrisia de que a piada não tinha nenhum alvo específico – e eu faço isso bem!

E o que dizer das incoerentes ofensas direcionadas às declarações de Jair Bolsonaro. Li pessoas inteligentes de opinião forte se contradizendo em notas de repúdio ao deputado. Sobrou até mesmo para o CQC, pelo simples fato de ter exibido a entrevista, sendo atingido pelo estúpido argumento de que declarações assim não podem ir ao ar. Vamos censurar os discursos a favor da censura, olha como somos geniais! Mandemos também à cadeira elétrica aqueles que são a favor da pena de morte, assim já nos livramos dessa raça! E são essas as mesmas pessoas que fazem discursos a favor da liberdade de expressão. Pelos vistos essa liberdade só pode existir quando a expressão é de senso comum a todos.

Não me entendam mal: acho o excelentíssimo deputado Jair Bolsonaro um cretino dos maiores, dotado de uma capacidade “Activianesca” de falar merda. Mas sei distingüir a idéia da pessoa e concordo com alguns pontos polêmicos: Sou contra o sistema de cotas, a favor da pena de morte, a favor do aborto. Alguns pontos defendidos pelo deputado são inclusive compartilhados e exaltados pelo super-herói brasileiro, o Capitão Nascimento – aquele mesmo que tantos ferrenhos críticos Bolsonarianos apóiam e idolatram.

Os pontos mais polêmicos das entrevistas de Jair Bolsonaro foram de um preconceito e uma idiotice tão grande que chegaram a me lembrar das declarações de Datena contra os ateus. Estes que também sofrem da demagogia de uma parte religiosa que diz respeitar todas as crenças mas demonstram um desdém e repúdio contra a falta de crença. “Temos que respeitar as outras religiões” sim, assim como temos que respeitar a falta de religião – que não deixa de ser uma crença. Minha religião se baseia na idéia de que o Universo gira espiralmente no centro de um grande pudim de leite (falo sobre isso mais tarde) e você tem todo o direito de achar que é uma idéia idiota, da mesma forma que eu tenho o direito de acreditar que um ser onipresente, onipotente e onisciente criou tudo a partir do nada é uma simples imaginação até demasiadamente infantil. Minha crença deve ser tratada de forma tão digna quanto a sua; e sua opinião deve ser respeitada na mesma intensidade que você deve respeitar a opinião de um deputado que é a favor da ditadura. Sim, tudo se discute.

Datena WTF

Congela o Ulisses que ele é gordo! (via @naosalvo)

Se você agüentou ler até aqui, podem usar os comentários pra me criticar e até me ofender, porque não? No fundo eu ofendo muita gente a toda hora.

…Mas vamos falar de coisa boa? – E sem demagogia!

[UPDATE (27/04/2011)]
Adaptei o texto, deixei ele um pouco mais polêmico e ofensivo e mandei para ser publicado no Papo de Homem:
http://papodehomem.com.br/a-ditadura-do-politicamente-correto/
O foco do texto lá é outro: é mais voltado para defender a liberdade de se dar uma opinião, não importa quão polêmica e absurda essa opinião seja. Mas gerou uma discussão (até interessante) meio fora do foco. Na verdade a discussão muitas vezes é sobre o quão racista ou homofóbico eu sou.