Debaixo da Polônia

Long-Read

Um texto que começa com a machetada na Polônia, e segue minha visita à cidade subterrânea nazista – com mais conteúdo didático histórico do que duas horas de History Channel.

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outros long-reads…

No último sábado do mês de janeiro do ano da graça de 2018 acordei cedo. Levei um tempo para lembrar onde eu estava: era um apartamento vazio, mas relativamente conhecido na região de Prenzlauer Berg, em Berlim. Era meu primeiro dia sem trabalho, após o fim do aviso prévio de meu pedido demissão no final do ano anterior. Eu já não possuía moradia própria, passei o mês todo morando de favor na casa de uma amiga portuguesa que no momento estava no Brasil.

Fui até a cozinha, e enquanto tomava um café com pão com manteiga, coloquei em uma sacola toda a comida que me restava: alguns pães, chocolates e uma variedade razoável de queijos. Como a casa ficaria vazia por algum tempo e eu não planejava me estender muito na cidade quando voltasse para Berlim, limpei a cozinha de tudo que fosse perecível e comestível para me servir de alimento durante a viagem – uma estratégia comum para quem viaja sem dinheiro. Minhas malas estavam já arrumadas, ocupando um canto do quarto – elas iam ficar ali durante os 17 dias que eu passaria viajando pelo leste europeu, passando por Polônia, Bielorrússia (a tradução para português de Belarus), Lituânia, Letônia (a tradução para português de Latvia) e Estônia. Naquela hora, porém, eu ainda não estava certo de qual seria meu roteiro, já que viajar no improviso é outra característica marcante de viajantes desprovidos de apego ao bom-senso. A única certeza que eu tinha é que eu iria para a Polônia naquela manhã.

De volta à Polônia

Tal qual o Império Germânico ou a União Soviética fizeram nos séculos passados, de tempos em tempos eu também voltava para a Polônia. Eu tenho um apego emocional com o país, já que para todo lugar que eu vou eu carrego um mimo que a Polônia me ofereceu: uma cicatriz no lado esquerdo da minha fuça. O caso ocorreu em 2011, na minha primeira visita à Cracóvia (a tradução para português de Kraków), uma história que já foi em diversas ocasiões oralmente contada mas que até então não tinha sido transcrita em mal-traçadas palavras.

Em dezembro daquele ano, viajava eu com meu caríssimo colega Gustavinho Malvadeza pelo leste-europeu – mas não tão leste assim: basicamente seria uma visita a Cracóvia e Praga. Na cidade polonesa, ficamos hospedados em um hostel no antigo bairro judeu (mas os judeus saíram todos de lá no começo da década de 40, sabe-se lá porquê), que era mais barato e mais condizente com minha situação de pobreza de alguém que perdeu na vida; porém ficava meio fora do fervo polonês: os pubs mais legais, a feira natalina na praça central, as baladinhas subterrâneas, os zona-lestenses oferecendo haxixe nas ruas, os restaurantes tourist-trap, enfim, a vida semi-noturna típica de uma baixa cidade turística européia.

Saímos então, eu e Gustavinho Malvadeza, caminhando até o centro murado da cidade, entrando em pubs, tomando a baratíssima cerveja polonesa, indo de bar em bar, em algum momento eu lembro da existência de uma garrafa de Żubrówka (uma vodka que vêm com uma folha de grama dentro) no hostel, mas pode ter sido depois disso também, não sei ao certo. Deve ter sido antes, porque eu tenho memórias (e ausência de memórias) de uma noite bêbado; em um dos bares uma garota veio falar com a gente, ela não estava apropriadamente vestida para o frio polonês, Gustavinho Malvadeza me alertou da possibilidade que na verdade nós estávamos em um bordel, parecia mesmo, não que fosse ruim, mas eu preferia beber em lugares mais baratos então saímos de lá. A noite se estendeu, foi divertida, teve wildcards da NFL em um dos bares. Gustavinho Malvadeza é bom de papo, um rapaz extremamente simpático, agradável e que adora perder seu tempo com bobagens, vale a pena chamar ele pra uma cerveja; chamei agora mesmo, inclusive, mas ele demora pra responder, deve estar me ignorando.

Enfim, era cu da madrugada quando caminhávamos de volta ao bairro judeu. Seguíamos pela calçada exterior aos muros da cidade, com um parque gramado à nossa esquerda e a avenida à nossa direita. Carros passavam na avenida, não era um local abandonado, muito menos para dois brasileiros oriundos das proximidades da Brasilândia tais qual eu e Gustavinho Malvadeza. Conversávamos sobre amenidades, como se nunca fosse nos faltar assunto. Até que um homem saiu do gramado e veio em nossa direção. Ele devia ter entre 40 e 50 anos, era corpulento e usava uma blusa desbotada, mas que parecia quente e confortável. Ele comentou alguma coisa ininteligível, mas não paramos de andar; seguimos nosso caminho, mas o cidadão seguiu andando com a gente falando algo em polonês. Ele se posicionou em frente a nós, olhando e falando diretamente em nossa direção e continuou andando de costas, bradando explicações em polonês em um tom de voz cada vez mais alto e mais raivoso, enquanto eu e Gustavinho Malvadeza simplesmente respondíamos repetidamente “sorry man, no money man” com a tranquilidade de Einstein resolvendo um Sudoku.

Indignado com sua falta de habilidade em comunicação, o homem tirou de dentro de seu casaco um machete de uns 40 centímetros e balançou-o no ar ainda gritando em polonês. Oras, meu caro, você está lidando com dois brasileiros da periferia de São Paulo; não é um machete que vai amedrontar jovens que passaram a infância indo jogar bola nas favelas do Cantagalo. “Sorry man, no money man”, respondemos, o que, dada minha condição financeira da época, era uma frase de uma veracidade constrangedora.

Talvez atordoado pela incapacidade de assustar-nos ou frustrado pelo fracasso em fazer-nos entender o seu claro e óbvio discurso em polonês, o cidadão ficou emputecido. Empurrou Gustavinho Malvadeza, que não perdeu o rebolado e simplesmente deu um passo pra trás, como no movimento número 7 do Charleston. “You don’t need to do that!”, disse eu, alertando o rapaz para o não-uso de violência como ferramenta de bom convívio social. A resposta dele foi um silencioso golpe de machete, de cima pra baixo, acertando a parte esquerda do meu maxilar. Minha reação foi mais de susto do que de dor. “You don’t need to do THAT!”, repeti, acho eu. Por fim, para a humilhação ser total e completa ele estapeou a minha cara, num golpe que doeu em minha alma e, acreditando que seu ponto estava estabelecido, saiu e voltou para o parque à beira do muro.

Gustavinho Malvadeza ficou puto da cara dele. No resto do curto caminho até o hostel, ele destacou repetidamente o quão bravo e indignado ele estava com o fato de eu ter sido atacado com um machete. O corte não tinha sido profundo, a maior dor era um inchaço por conta da pancada. O queixo parou rápido de sangrar e um band-aid resolveu a maior parte do problema e a imensa bola roxa resultante da machetada podia ser convenientemente coberta por um cachecol. Depois de algumas semanas, o rosto desinchou, só sobrando a leve cicatriz. “Você vai pegar muita menininha ainda com essa cicatriz, meu velho. Fica tranquilo!”, tentava me animar Gustavinho Malvadeza naquela noite. Nunca funcionou. Talvez “Ei, gata! Olha minha cicatriz! É da Cracóvia!” realmente não seja a melhor cantada mesmo.

eu e Gustavinho Malvadeza em foto que pode ou não ter sido tirada na noite da machetada

Na sequência da viagem, seguimos para passarmos a virada de ano em Praga, numa história que não vale ser contada no momento, mas que inclui russas cantando “Ai se eu te pego”, nós dois bêbados comprando 800 gramas de um pernil assado julgando que seria uma boa idéia, um final de noite urinando no portão de uma casa templária e uma guerra de fogos de artifício na ponte Charles. E com neve: nevou em Praga na primeira semana de 2012, isso eu posso afirmar.

Wrocław

Uma das coisas mais legais de morar em Berlim, sem contar a dezena de lindos parques, o transporte público funcionando 24h de sexta a domingo, a cerveja de qualidade a 60 centavos de euro, ótimos kebabs que nunca fecham, o Karaokê aos domingos no Mauerpark, a vida noturna maluca, os hambúrgueres de 3 euros servidos em banheiros, as piscinas públicas, as ciclovias passando por caminhos duvidosos, a incrível história recente da cidade estampada em prédios, ruas, marcos e monumentos; enfim, tem coisa legal pra caramba de morar em Berlim, mas o ponto a ser destacado aqui é a sua localização privilegiada dentro do continente europeu.

A Alemanha é o bem-posicionado limiar entre diversas europas: ela está estrategicamente próxima da Europa turística continental dos pacotes CVC, dos caros países nórdicos onde a lagosta tem preço de lagosta mas o risoles também tem preço de lagosta, dos balcãs tão subdesenvolvidos que a fictícia Molvanîa soa aceitável e da minha parte favorita da Europa: o Leste Europeu. Berlim, particularmente é extremamente bem localizada: pegando um ônibus, em 3 horas é possível chegar na Dinamarca, na Polônia ou na República Tcheca, dependendo da direção que se tome. Por deus, em São Paulo, se eu pegar um ônibus saindo de casa, depois de 3 horas eu chego na Vila Olímpia ou no Carrão.

Segui eu então, no meu Polski bus (viagens terrestres pela Europa a preço de RyanAir), em direção a Wrocław, a maior cidade do oeste polonês, a qual eu nunca havia estado, uma vez que o leste do país é a região mais turisticamente fervilhante.

a lindinha Wrocław

WrocÅ‚aw, porém, é tão charmosa quanto Cracóvia ou Varsóvia. No final de janeiro, a árvore de natal ainda estava montada em frente à igreja, na praça central da cidade, e as luzes e decorações ainda enfeitavam a cidade, tornando tudo mais belo ainda. Sem relação nenhuma com o natal, pequenas estátuas de duendes também se espalham por toda cidade e encontrá-las é parte da diversão – elas começaram a surgir em 2005 e hoje são mais de 350. Depois de flagrar algumas e colocá-las em um Instagram Story com alguma explicação em português, recebi uma mensagem de Ewa, minha amiga polonesa, natural de WrocÅ‚aw, dizendo “Eu não entendo o que você está falando, mas com certeza, você pronuncia WrocÅ‚aw errado. Seria algo como Vrotzlove.” – o que é muito mais próximo do nome tcheco da cidade (“Vratislav”), mas ainda distante do nome alemão (“Breslau”).

O nome Breslau, aliás, era o nome alemão oficial da cidade, quando o território da Silésia (local onde a cidade fica) ainda era parte da Prússia – consequentemente, território alemão. Breslau chegou a ser a sexta cidade mais populosa da Alemanha, porém, com a derrota do nazismo após a Segunda Guerra Mundial, a Conferência de Potsdam refez as fronteiras da região e a Baixa Silésia passou a ser polonesa. A população alemã e checa foram expulsas da localidade, substituídos por poloneses, que, por sua vez, tinham na maioria sido expulsos de regiões da Polônia que foram anexadas pela União Soviética.

Na estrada

No dia seguinte, um domingo, acordei antes do sol nascer. O que, no inverno europeu não significa muita coisa, já que não é incomum o sol nascer por volta das 8 da manhã. Enquanto o café da manhã era montado no hostel, eu peguei todo o queijo que ainda me sobrava e dividi por todo o pão que eu tinha disponível, os quais, juntos com uns chocolates randômicos seria minha refeição para o dia. Segui o caminho em direção à estação ferroviária, porém meu transporte para o dia não seriam trens, mas sim um carro alugado para poder chegar na isolada entrada da cidade subterrânea abandonada do Osówka, numa área remota e de difícil acessibilidade do oeste polonês.

Apesar de ser final de janeiro, o clima polonês estava bem mais ameno do que o esperado. Não nevava e as ruas não estavam congeladas. “Não devo precisar de pneu de neve, certo?”, perguntei na locadora. “Para só um dia de aluguel, certamente não.”, respondeu a atendente. Peguei o carro, e saí por aí, seguindo o Google Maps, em um caminho que me levou rapidamente para fora de uma grande estrada, passando por cenários bucólicos, margeando rios e florestas.

Depois de pouco mais de uma hora e meia me embrenhando no interior do sudoeste polon̻s, a rota indicada fazia uma abrupta curva para a direita, que eu acabei perdendo unicamente por ṇo ter percebido que ali era uma rua. Fiz o retorno e entrei no estreito caminho indicado Рlargo o suficiente para passar apenas um carro por vez. Depois de alguns metros, o cḥo da estrada come̤ou a ficar branco. Para ajudar, come̤ou a nevar.

Foi como se eu tivesse entrado em um globo de neve mágico. Os arredores se embranqueceram, não havia qualquer outro carro ou pessoa nos arredores, a neve caía com força no vidro, eu dirigia devagar na estrada que subia, imaginando que seria bem mais prudente dar ré (uma vez que era impossível manobrar um retorno no espaço apertado) e desistir daquela rota. Segui em frente, como bom inconseqüente que sou. Depois de um tempo, a rua começou a descer. O carro derrapava assustadoramente na neve, como se estivesse me lembrando que eu desdenhei de pneus de neve. Segurei o volante com força, tentando simplesmente me manter na pista, pisando com parcimônia no freio e nunca no acelerador.

O carro parou. Huskies me olhavam com curiosidade por trás de uma cerca, tendo eu como único entretenimento na região. Conferi o celular para ver se aquele era realmente o caminho certo, se a cidade de Osówka era realmente por ali. Ele mandava eu seguir em frente por mais oito minutos e, simplesmente por parecer impossível retornar de ré essa descida escorregadia que eu tinha acabado de passar, avancei. Logo, de forma tão mágica quanto começou, a neve cessou e eu estava em uma estrada de terra que poderia ser tanto Mairiporã quanto a Escócia do século XVII. Ali eu já estava nos arredores da minúscula cidade de Głuszyca, com cerca de 7000 habitantes e aos pés das Montanhas Sowie. E, a 80 quilômetros de Wrocław, a primeira placa apontando Osówka apareceu, faltando menos de 5 minutos para chegar em meu destino.

Osówka

Dois outros carros estavam estacionados em frente à casa que servia como café e escritório turístico do local. Além da pouca sinalização, há quase nenhuma referência turística para visitar Osówka. O mistério em torno do lugar vêm desde os tempos da Segunda Guerra Mundial: aqui estaria apenas uma parte de uma série de túneis e escavações subterrâneas que estavam sendo feitas pelos nazistas na região da Baixa Silésia, hoje pertencente à Polônia, mas que antigamente era parte da Prússia e, consequentemente, território alemão até o final da Segunda Guerra. A localização era estratégica porque, além de ser originalmente alemão, estava situada em uma região mais central da vasta área de dominação nazista, a cerca de 350 km de Berlim.

O megalomaníaco e quase desconhecido complexo subterrâneo que eu visitava leva o nome de Projeto Riese (gigantesco em alemão) e os objetivos finais de sua construção não são claros até hoje. Ir para debaixo da terra seguia como a opção mais lógica, devido aos intensos bombardeios que o eixo sofria. Mas as construções subterrâneas não se limitavam a simples bunkers. Em outras localidades, os nazistas já estavam trabalhando em fábricas bélicas subterrâneas, como a fábrica de bombas de Mittelwerk, na Alemanha Central ou o mais recente complexo B8 Bergkristall, descoberto na Áustria em 2014 pelo cineasta Andreas Sulzer, que começou as buscas pelo local inspirado em um documento de um espião americano de 1944 que reportava a possível existência de uma fábrica de bombas na região. Essas estruturas grandiosas levam historiadores e exploradores a acreditar que o resultado final do Projeto Riese deveria ser uma completa cidade subterrânea com cerca de 35km² e capacidade para até 20.000 habitantes, com estrutura completa incluindo usina de energia, indústria militar, e até centro de produção de novos armamentos, incluindo todo o equipamento necessário para a pesquisa e desenvolvimento do que deveria vir a ser a bomba atômica nazista. 

a entrada dos túneis subterrâneos

Os túneis começaram a ser construídos em 1943. O encarregado do projeto foi o arquiteto Albert Speer, amigo pessoal de Hitler e ministro da produção armamentícia do Terceiro Reich; e a engenharia ficou a cargo das Organizações Todt, empresa de confiança de Hitler, responsável pela construção da Muralha Atlântica, que era o mais importante mecanismo de defesa da costa ocupada francesa. Devido ao tamanho do projeto, uma outra empresa foi criada para lidar com as obras, a Companhia Industrial Silesiana (Schlesische Industriegemeinschaft AG) e Speer foi colocado para comandar os trabalhos de construção. As obras começaram simultaneamente em diferentes pontos das montanhas Sowie. Há sete pontos subterrâneos conhecidos, mas nem todos podem ser visitados.

O complexo de Osówka é um dos maiores e com melhor estrutura turística. O que não quer dizer muita coisa: há  um serviço de áudio-guia em inglês, mas os guias falam apenas polonês. Também é necessário agendar a visita com antecedência, momento que será recomendado ao visitante o uso de roupas quentes e sapatos à prova d’água, além de levar lanternas. O meu grupo era composto de aproximadamente uma dezena de pessoas, todos poloneses, com exceção de mim.

Nos agrupamos na entrada do túnel, onde recebemos um capacete obrigatório e nos são dadas as primeiras instruções de segurança (somente em polonês, eu tive que deduzir a maior parte das coisas conforme fui seguindo chão adentro).

Assim que entramos nos túneis, é possível compreender a necessidade desse aparato todo: o caminho rudimentar segue escavado por dentro da montanha onde não parece haver muita estrutura de segurança. Poucas áreas estão escoradas com paredes e teto de cimento e mesmo essas são originais da época nazista. O maior salão, com cerca de oito metros de altura está completamente cimentado, mas ainda é amparado pelos suportes de madeira originais usados em sua construção, apodrecendo pela ação do tempo e da umidade no interior da caverna. Portanto a sensação de segurança é só um pouco maior do que morar num prédio comprado de milicianos cariocas.

um dos túneis do Projeto Riese

Uma das primeiras salas na entrada do complexo parece finalizada: há até mesmo uma minúscula janela quadrada apontando para o corredor de entrada de forma que um soldado pudesse monitorar o acesso. Atualmente, uma arma fica a postos nessa janela, como uma demonstração de seu uso. Em certos pontos do caminho ficam em exibição uniformes, máscaras de gás, armas, materiais de construção e uma série de parafernalha nazista que foi abandonada às pressas quando o exército soviético se aproximava, no começo de 1945. Ao perceber que a guerra estava perdida, Hitler emitiu o “decreto Nero”, ordenando a destruição de toda a infraestrutura alemã para que não fosse utilizada pelos inimigos que se aproximavam. Documentos importantes, tais quais aqueles que detalhavam o projeto a ser construído foram completamente destruídos. O decreto, porém, foi deliberadamente desobedecido pelo próprio Albert Speer, o que leva a crer que diversos equipamentos e maquinário militar foram tomados pelo exército soviético quando encontrados. Ainda assim, paredes e túneis foram derrubados e algumas entradas foram seladas e só foram descobertas décadas depois. Isso só fortalece o mistério e o desconhecimento a respeito dos complexos subterrâneos que segue até hoje.

Durante a fuga, os nazistas também esvaziaram o campo de concentração de Groß-Rosen, que abrigava os prisioneiros judeus que trabalhavam na construção da cidade subterrânea. A composição da rocha das montanhas Sowie, por ser mais dura, permitia salões e túneis muito mais amplos, mas em compensação, tornava o trabalho de escavação extremamente difícil e perigoso. Um sub-campo foi construído a 700m da entrada de Osówka, o que evidencia a alta prioridade que a construção dessa cidade tinha nos planos nazistas. Os prisioneiros eram todos judeus e passavam um dia todo de trabalho sendo alimentados basicamente com sopa, três pedaços de pão e meio litro de café. A expectativa de vida de um trabalhador de Osówka girava em torno de quatro meses. Estima-se que 13.000 judeus tenham sido usados nas obras e quase 5.000 tenham morrido durante a construção dos túneis, por conta de doenças, subnutrição ou acidentes de trabalho.

Em outra parte do complexo, é possível ver carrinhos que rodavam sobre trilhos, usados para tirar a terra e pedra que iam sendo escavados. É até complicado imaginar as dificuldades que esses trabalhadores enfrentavam, uma vez que, mesmo anos depois, tendo uma básica infraestrutura para visitas, andar pelo complexo ainda é extremamente difícil. Uma parte do túnel está inundada e, para atravessá-la, é necessário inicialmente usar um pequeno barco e depois andar no escuro sobre pranchas de madeira porcamente equilibradas em correntes e apoios no chão. O teto às vezes é baixo, comprovando a necessidade do uso do capacete e algumas pedras estão escoradas por suportes de ferro e arame completamente oxidados, comprovando a necessidade de uma dose de vacina anti-tetânica. É também possível ver morcegos dormindo no teto, alheios à atividade turística. Após quase duas horas no claustrofóbico escuro úmido das cavernas, é inevitável sentir um alívio na visão da luz do dia na saída da cidade subterrânea. Saímos por um túnel diferente do que entramos, um pouco mais isolado na densa floresta da região, escorregando no gelo da trilha que levaria de volta ao estacionamento de Osówka.

carrinhos usados na construção dos túneis

O passeio termina com a acertada impressão que ainda há muito a se descobrir sobre o Projeto Riese. Baseado em correspondências de Albert Speer, o arquiteto nazista, alguns pesquisadores estimam que apenas 10% de todos os túneis foram descobertos até agora. No ritmo de construção que ela seguiu, acredita-se que, se a guerra durasse mais dois anos, ela estaria funcionando a todo vapor, mas provavelmente as estruturas básicas poderiam começar a serem usadas bem antes disso. Em seu livro de memórias, o arquiteto declara que a preocupação do alto comando nazista com a própria sobrevivência chegava a “níveis insanos”, o que levava ao fortalecimento dos bunkers com a mesma evolução com a qual se fortalecia o poder destrutivo dos armamentos aliados. Em Obersalzberg, a cidade tipicamente nazista retratada num dos capítulos finais da série Band of Brothers, um bunker subterrâneo semelhante estava sendo construído, mas nunca chegou a ser usado. Hoje é possível visitar tanto o bunker de Obersalzberg como o “Ninho de Águia”, uma residência próxima dada de presente a Hitler que se localiza no alto de uma montanha e é acessada através de um túnel e um elevador folheado a ouro.

Não chega a ser surpresa que os líderes nazistas tenham terminado suas vidas em bunkers subterrâneos. Já Albert Speer, o arquiteto do Projeto Riese, foi um dos nazistas condenados nos julgamentos de Nuremberg, depois da Segunda Guerra. Ele se declarou totalmente arrependido pelos crimes cometidos pelos nazistas, mas alegou total desconhecimento quanto ao extermínio em massa promovido pelo Holocausto. Para fortalecer sua imagem de “bom nazista”, ele até declarou que tinha pretensões de assassinar Hitler anos antes. O discurso de defesa é difícil de acreditar: Speer usava trabalho escravo em suas fábricas bélicas e era #BFF de Hitler. Em outro ponto de seu livro, ele declara que, ao confrontar o Führer por sua desobediência em seguir o Decreto Nero, Hitler teria dito que “Se você não fosse meu arquiteto, eu teria tomado as atitudes devidas para um caso desses”, deixando subentendido que a punição poderia ter sido bem severa. Speer, porém, colaborou com o exército aliado desde sua captura e o seu carisma e falsa candura demonstrada surtiram efeito: enquanto os demais nazistas eram mandados à forca ou à prisão perpétua, ele foi condenado a apenas 20 anos de prisão, sendo solto em 1966. Ele morreu em 1981 em Londres. Apesar de ter dois livros autobiográficos publicados, suas obras mal tocam no tema das cidades subterrâneas inacabadas. 

Além da falta de informações, as buscas e pesquisas mais aprofundadas são extremamente difíceis, tanto por conta das condições atuais dos túneis conhecidos e da dificuldade prática em fazer novas escavações quanto pelas barreiras burocráticas existentes, uma vez que tudo que se encontra um metro abaixo da superfície pertence ao governo polonês.

Outros tesouros

Em fevereiro de 2015, a Polônia mudou levemente suas leis quanto aos tesouros encontrados debaixo do solo, alterando a recompensa do explorador que encontrar algo: o que antes se limitava a um mero honorário agora passou a ser 10% do valor do que quer que tenha sido achado. Por conta disso, grande parte do trabalho de pesquisas feito ultimamente é coordenado por equipes locais de caçadores de tesouros (eles preferem ser chamados de “exploradores”), que passam meses estudando mapas antigos e documentos abandonados pelos moradores alemães que foram expulsos das casas depois de 1945. Eles também passam tardes inteiras andando nos parques nacionais da região prestando atenção na topologia do terreno e procurando elementos que não fazem parte do cenário, como saídas de dutos de ar que possam indicar a presença de túneis submersos.

A busca deles é por valiosos artefatos que caíram nas mãos dos nazistas, como a “Amber Room”, uma sala inteira, com um interior ornado com painéis de ouro e âmbar que fora roubada do Palácio de São Petersburgo durante a Segunda Guerra e está desaparecida desde então. Acredita-se que ela pode estar escondida debaixo do solo da região. Somente essa sala teria hoje um valor estimado em cerca de 200 milhões de libras, então os investimentos e as apostas na busca pelos tesouros têm sido altas, dado o tamanho da recompensa. Consequentemente, atenção dada à exploração do complexo cresceu.

Outro exemplo de tesouro que pode ter sido escondido nos túneis é o “Nazi Gold Train”, um trem recheado de ouro, diamantes e peças de arte valiosas como tapeçarias e quadros que teriam sido tomadas de seus antigos donos, vítimas do genocídio nazista. Relatos incertos apontam que o trem foi escondido pelos alemães na região quando eles perceberam que perderiam a guerra. O fato de haver um sistema ferroviário na cidade subterrânea (mesmo que precário), seu estilo labiríntico e seus acessos destruídos antes da evacuação trazem um interesse na região. A última grande expedição em busca do tesouro aconteceu em 2016 e contou com a ajuda de detectores de metal, câmeras térmicas, radares e até apoio do governo polonês, mas nada foi encontrada ainda. Grandes emissoras internacionais como a BBC e a Discovery chegaram a patrocinar algumas equipes de exploradores na esperança de obter, além do retorno financeiro, um bom documentário.

E o espaço de busca também é imenso. Depois de visitar a cidade subterrânea, segui em direção ao castelo Książ, um palácio esplendoroso situado a cerca de 30 quilômetros da entrada de Osówka. Dois andares de galerias foram escavados debaixo do castelo, a mais de 60 metros de profundidade, e acredita-se que a intenção final era que todas as escavações se unissem como uma só. Isso reforça a teoria de que a cidade subterrânea poderia ser usada como sede do governo nazista, já que o castelo Książ estava sendo reformado para se tornar a residência de Adolf Hitler. O quarto que viria a ser do líder austríaco teria, inclusive, um elevador com acesso direto aos túneis, para conforto e segurança do Führer.

Książ

Cheguei no castelo Książ após me perder vergonhosamente na estrada – a bateria de meu telemóvel acabou e por duas vezes eu simplesmente chutei o caminho que eu deveria tomar (errei nas duas). Parei o carro no enlameado estacionamento e aproveitei o parque ao redor do castelo para comer meu almoço no meio da tarde – aquele composto de pão duro com quantidades obscenas de queijo, mas no caso o queijo já tinha se unido ao pão, formando uma massa única auto-colante na qual cada mordida levava meia hora para ser apropriadamente mastigada. Ia então eu caminhando e mastigando, como uma vaca curiosa.

Há diversas trilhas e caminhos acessíveis ao redor do castelo e andar por eles é delicioso, mesmo com o tempo mais frio. Książ também é evidentemente bem mais turístico, mas ele também conta um pouco de sua história debaixo do chão, inclusive destacando em alguns painéis informativos a existência de túneis. E o castelo também possui seus mistérios, um dos mais populares deles sendo o paradeiro do corpo da Princesa Daisy.

o castelinho

Daisy de Pless, nasceu com o nome “Mary Theresa Olivia” em 1873 no País de Gales. Ela passou toda sua infância envolvida com o alto escalão da nobreza do Império Britânico, sendo inclusive próxima do rei Edward VII e de George V. Além de uma personalidade encantadora, Daisy era uma tetéia, tendo sido escolhida em 1907 como a mais bela mulher da aristocracia britânica, em algum concurso que não tenho idéia como pode ter sido desenvolvido, mas que poderia ter sido apresentado pelo Silvio Santos. Uma coisinha bonitinha dessas não fica solteira por muito tempo na nobreza, e Daisy casou-se com o germânico Hans Heinrich XV. Os dois se mudaram para Książ para Hans poder administrar as minas de carvão dele ali na Silésia e viveram aquela vida imensuravelmente rica e incrivelmente triste que só o pessoal de sangue azul é capaz de viver. Hans até presenteou a esposa com um ridiculamente caro colar de pérolas de quase sete metros. Daisy ainda mantinha um forte contato com o Império Britânico; e tendo os recentes vínculos com o Rei William II ela tentava pregar a paz com o Império Germânico. A existência da Primeira Grande Guerra é a prova que ela fracassou nessa tentativa de paz. Durante a guerra, Daisy atuou como enfermeira e destacou-se por tratar com o mesmo cuidado de soldados de ambos os lados do confronto.

Aos 50 anos de idade, depois da guerra, de ganhar o colar e gerar 3 filhos, Daisy e Hans se divorciaram. Era 1923 e ela continuou a viver no castelo de Książ até 1941, quando a propriedade foi confiscada pelas autoridades nazistas. Na época, a princesa e os filhos faziam oposição ao regime – um deles, inclusive foi morto durante um interrogatório um tanto mais cruel do Third Reich. Também se descobriu posteriormente que Daisy ajudava os prisioneiros do campo de concentração de Gross Rosen, contrabandeando comida para eles.

Ela morreu sozinha e pobre em 29 de junho de 1943, na cidade de WaÅ‚brzych. A lenda começa aí: ela teria sido enterrada com seu colar de pérola em um mausoléu no próprio castelo mas, com a chegada do exército vermelho, ela foi transferida para um novo ponto. Esse ponto seria um suposto cemitério protestante em Szczawienek, mas as autoridades da Silésia destruíram esse cemitério na década de 80 e o corpo de Daisy teria voltado para o castelo de Książ. Um dos mistérios debaixo da terra polonesa é o corpo da princesa, que poderia ou não estar ainda com seu valioso colar – que talvez nem sete metros teria mais, já que há relatos que ela vendeu parte das pérolas quando estava na pobreza para poder sobreviver.

Deixando a Polônia

O castelo já estava fechando quando eu finalmente terminei minha longa visita. O estacionamento já estava praticamente vazio e o céu já estava escurecendo, mesmo sendo ainda por volta de cinco da tarde. A noite já dominava quando, depois da viagem de volta, eu devolvi o carro em Wrocław. Fui jantar em algum lugar mais bacanão, dar um último rolê no lindinho centro da cidade e descansar para pegar o ônibus na manhã seguinte em direção à Cracóvia, minha cidade favorita da Polônia, mesmo com o advento dos machetes. Na Cracóvia cortei o cabelo, passei dois dias indo esquiar no quase desconhecido complexo de Kotelnica Białczańska, comi queijos, tomei cerveja e depois fui em direção à Varsóvia, onde passei algumas horas antes de pegar o ônibus rumo a Belarus.

ói eu aí

Assisti ao superbowl em um hotel três estrelas em Minsk (algo em torno de 20€ por noite), assisti ao streaming do primeiro lançamento da Falcon Heavy na Lituânia e, já na Letônia ou Estônia, entrei em contato com o meu editor da SuperInteressante para tentar vender uma matéria sobre os tesouros enterrados na Polônia. No email, contei um pouco da cidade de Osówka e dos mistérios acerca de sua construção. Alguns dias depois ele me ligou dizendo que eles queriam a matéria, desde que o título fosse “A cidade subterrânea de Hitler”, o que me obrigou a alterar levemente a temática principal.

Mas dá pelo menos pra dizer que, do solo polonês, eu consegui escavar um texto.

+ More +

A matéria publicada na revista SuperInteressante pode ser lida em: https://super.abril.com.br/historia/a-cidade-subterranea-de-hitler/

Para informações sobre Osówka: https://www.osowka.eu/

Para informações sobre o castelo Książ: https://www.ksiaz.walbrzych.pl/en/turystyka/zamek