A marcha dos satisfeitos

Texto originalmente publicado na revista Piauí – edição 87 (dezembro de 2013).
http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-87/voz-rouca-das-ruas/a-marcha-dos-satisfeitos
Ilustração por Fido Nesti

Ilustração por Fido Nesti

A hora e a vez daqueles que não têm do que reclamar

Desde junho, o Brasil tem visto um incontável número de manifestações com as mais diversas justificativas e reivindicações. Tudo começou com os protestos contra o aumento da tarifa do transporte público, mas logo surgiram outras demandas como o fim da corrupção, a necessidade de reforma política, o repúdio à pec 37, a desmilitarização da polícia e a democratização dos meios de comunicação, passando por questões petrolíferas, financeiras, educacionais e caninas. Nunca foi tão fácil ser um Popular Exaltado (piauí_55, abril 2011), aquele sujeito que cospe, xinga e faz discurso em cima do caixote, julgando-se permanentemente ultrajado.

Nos últimos meses, tivemos uma passeata pela volta dos militares, uma marcha da família contra o comunismo, uma tentativa de levitação do Palácio dos Bandeirantes e um ato contra a Copa de 1954.

Só nos faltou uma coisa, e é o que viemos aqui reivindicar: uma passeata que contemple a discreta (e sempre excluída) minoria satisfeita.

Não estamos nos referindo aqui aos latifundiários, aos banqueiros, aos donos de empresas de ônibus e aos que gastam 50 mil reais por noite numa balada, já que estes têm cada vez mais do que reclamar: o aumento do iptu, a ameaça do metrô em Higienópolis, a popularização da rúcula com tomate seco, a revista Veja que passou a vir fora do plástico; tudo isso é fonte de stress e incerteza para a fatia mais abonada da população, que vem perdendo seu lugar ao sol para os beneficiários do Bolsa Família.

Falamos daqueles cinco ou seis indivíduos que nunca têm do que reclamar, que estão sempre contentes com a vida em termos gerais e não se deixam abalar por congestionamentos, filas e vazamentos nucleares. Oriundos dos mais diversos estratos sociais, o que não parece fazer diferença, são sujeitos tranquilos e sempre sorridentes, absolutamente confortáveis com sua condição sobre a Terra. Eles não possuem porta-voz, não têm agenda de reivindicações e nem motivo para protestar. Por isso mesmo devem sair à rua, precisamente para dar amplidão à sua distinta voz, incompreendida e marginalizada pelos que estão sempre achando sarna para se coçar.

Isso não quer dizer que sejam alienados e reacionários; apenas não veem necessidade de se cansar com infinitas demandas e embates hostis. São estoicos e não botam a culpa em ninguém; acham graça em tudo o que veem e riem diante das dificuldades.

A marcha dos satisfeitos acontecerá numa tarde de sol, de chuva ou de terremoto (tanto faz) e até o momento conta com as presenças confirmadas do meu sobrinho de 4 anos, um programador de computadores, um carteiro, uma jovem francesinha e três senhoras nipônicas plenas de serenidade existencial. (Taxistas e barbeiros estão intrinsecamente impossibilitados de participar.) Será uma marcha pacífica, amigável e unânime, repleta de cartazes com os dizeres: “Estamos satisfeitos”, “Nada a reclamar”, “Estou bem, e você?”, entre outros.

Ninguém se queixará de fome, sede, joanete, vontade de fazer xixi. Alguns caminharão com as mãos nos bolsos, chutando pedrinhas e assobiando uma velha canção. Outros, mais combativos, repetirão bordões como: “Eu já falei, vou repetir/ Eu já falei, vou repetir.”

Em vez de Black Blocs, a linha de frente será formada por uma célula de hare krishnas tocando mrdanga e dançando de sandálias, felizes da vida. Logo atrás, um grupo de monges franciscanos e de idosos em excursão, seguidos por seus cachorros.

O trajeto da passeata não será previamente definido, mas para onde for está bom. Rumores darão conta de que o grupo pretende andar até Pouso Alegre ou Várzea Feliz. Eles caminharão pela calçada e apreciarão o belo trabalho efetuado em termos de manta asfáltica.

Contudo, o cansaço irá provocar baixas. Uma simples bolha no pé pode incomodar certo passante que, uma vez insatisfeito, será forçado pela própria consciência a ir embora. Braços cansados de erguer cartazes ameaçarão durante todo o trajeto a resistência física dos participantes, que não cederão sequer a um inconveniente fraquejar do bíceps. Não haverá queixumes constrangedores como o registrado numa manifestação recente, em que um militante exaurido pediu à linha de frente: “Ô, pessoal, vamos parar por aqui, fechar a rua num protesto sentado… Sério que vocês querem andar mais?”

Não haverá dissidências, discordância de pautas e nem líderes do movimento. A massa acatará com alegria toda sugestão de rota indicada pela polícia. Ao passarem diante de hospitais, todos farão silêncio e rezarão pelos enfermos.

Durante a passeata, aliás, ninguém será hostil com os transeuntes. Em vez de: “Quem não pula quer tarifa”, a turba irá ponderar: “Quem não pula, tudo bem! E quem pula, bom também!”

Partidarismo não será um problema: a marcha contará com a presença apenas de partidos políticos totalmente satisfeitos, o que não deve existir na sociedade atual.

A grande imprensa irá registrar uma única ocorrência de discórdia: um sujeito que, convenhamos, começou a elogiar demais tudo o que estava aí, cruzando perigosamente a linha de quem possui uma reivindicação. Ele portava um cartaz com os dizeres: “Estou tão feliz que não me importaria se piorassem um pouco a situação econômica.”

Sua postura causou celeuma imediata e convidaram-no a se retirar do ato, junto com os que reclamaram do cartaz.

A polícia estará presente, e terá seu trabalho efusivamente elogiado. Se houver repressão, será recebida com grande disposição de espírito. “Este gás lacrimogênio realmente limpou minhas vias aéreas”, dirá um. “Mais pra esquerda”, dirá outro, enquanto apanha com o cassetete nas costas. A manifestação se dispersará por caminhos que manterão todos satisfeitos, e terminará na hora em que acabar.

Numa época em que reclamar e odiar é algo tão popular, nossos bravos satisfeitos estarão por aí, verdadeiros heróis da sociedade. Serão criticados, chacoteados por humoristas e receberão títulos ofensivos, mas não se importarão. Ao contrário: ficarão lisonjeados.

No dia seguinte, o prefeito mencionará o ato em pronunciamento à tevê e afirmará enfaticamente que suas portas estão abertas para toda e qualquer crítica do grupo.

Escrito em conjunto com:
Vanessa Barbara

Vanessa Barbara

Este texto foi escrito em parceria com Vanessa Barbara.
Vanessa é jornalista e escritora, colunista do International New York Times e da Folha de S.Paulo. Publicou Noites de Alface, da Alfaguara e comanda o editorial folhoso A Hortaliça – http://www.hortifruti.org/

 

Deyse

From: Igor Vianna
To: Andrey Mattos Machado
Sent: Monday, October 25, 2010 10:02 AM
Subject: Te falar hein

Já mandei e-mail pra Pri… Cara, a Deyse é a mulher da minha vida! Eu tenho certeza, nunca vi pessoa que tivesse tanto em comum comigo!!!

Estou amando

—– *** —–
From: Andrey Mattos Machado
To: Igor Vianna
Sent: Monday, October 25, 2010 10:04 AM
Subject: Te falar hein

Tbm falei com a Pri!!!

Eu gostei de tudo na Daisy, os olhos, o cabelo, a voz quando ela canta, a forma como ela ri de minhas piadas e de seu cheiro de flores da primavera! Nunca tinha passado por isso!

—– *** —–
From: Igor Vianna
To: Andrey Mattos Machado
Sent: Monday, October 25, 2010 10:13 AM
Subject: Te falar hein

Adoro o jeito como o cabelo passa pela brisa suave do mar, como ela toma sopa Maggi na caneca, de como se arrepia quando eu falo dos Pokémons, da maneira que deixa a unha do dedinho do pé esquerdo 0,2 cm maior que estaca de Hunsderhalls.

Posso dizer que ela me faz melhor que fermento em torta de caramelo.

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O Escritório

Este texto não é meu. É um espaço que eu gostaria de ceder para diversos autores que considero sensacionais compartilharem também suas próprias babaquices.
Andrey é o vilão especialmente convidado da vez.

Milhões e milhões de pessoas ao redor do mundo sabem o que é trabalhar todos os dias em um escritório. O resto, incluindo limpadores de chaminés, especialistas anti-bombas e jogadores do palmeiras, têm sorte.

Não que seja ruim passar mais de 45 horas semanais dentro de uma sala climatizada, encarpetada, com cafézinho à vontade, banheiros disponíveis, horário para refeições e pessoas de todos os tipos convivendo juntas. O único problema é que eu, pessoalmente, preferia ter meu corpo beliscado por mil siris malvados à isso.

Dwight Schrute

Segunda-feira?

Ainda não encontrei os mil siris malvados, portanto sim, eu trabalho em um escritório.

Abaixo uma descrição simples de alguns aspectos da infra-estrutura desse ambiente de trabalho. Apenas como uma referência para quem ainda não é climatizado com as maravilhas de um escritório.

Trabalho ao ar preso

Já que toquei no assunto, porque não falar dos tais sistemas climatizados? Parece uma benção trabalhar em um ambiente em que a temperatura está perfeitamente regulada para que meu corpo possa manter suas funções vitais, enzimas trabalhando perfeitamente, glândulas sudoríparas em estado sonolento, além de sentir uma sensação agradável durante todo dia, não importa a estação do ano. Bom, sim, isso é uma benção, de fato. O que ficou de fora dessa linda história é que esses tais sistemas devem ter sido feitos nos anos 30, quando ainda não existia esse tal de Aquecimento Global. É impressionante perceber que no inverno, o ar-condicionado funciona perfeitamente, exigindo o uso de blusas e cachecóis em plena “Reunião Mensal de Desempenho”, enquanto no verão há revolta e piquetes contra o Zé, que explica que nada pode fazer, pois o ar condicionado já “está no último”.

Além do mais, quando falamos de uma temperatura agradável a que temperatura você se refere? Como disse inicialmente, o escritório é uma amostra de todos os tipos de pessoas, temos então desde esquimós calorentos até beduínos friorentos. Certamente ainda haverá a “Rebelião dos Cubículos” por questões climáticas, aonde haverá morte e raiva recíproca.

O último ponto, ao se falar do áquario humano que é o escritório é que, se as pessoas não chegam a um consenso em relação à temperatura, então ao menos em outros aspectos elas dividem como irmãs o seu dia-a-dia. Gripes, resfriados, viroses e doenças mil convivem perfeitamente entre os seres humanos, viajando de baia em baia pelo complexo sistema de túneis de ar-condicionado que isola a todos do mundo exterior. Continuar lendo

Pequeno manual de humor ofensivo

O brasileiro sempre teve dificuldade em definir os limites do humor, mas no passado estava tudo bem porque as pessoas costumavam se concentrar em coisas realmente importantes, como a fome mundial, as guerras e os 12 problemas bucais que um ser humano pode ter. No entanto, ultimamente, a patrulha do politicamente correto – formada por pessoas com uma grande falta de sexo e um ainda maior excesso de tempo – vem se dedicando a estudar as piadas que circulam por aí.

Mate o piadista!

“Nossa! Pensei numa piada ótima agora!”

Com um tridente numa mão, um crucifixo na outra e gritando “Fogueira aos humoristas!”, a Patrulha Aburguesada Unânime (PAU) tenta impor limites às piadas que os humoristas têm contado. Em revide, a frente dos Humoristas Inconsequentes Moderados E Negativistas (HIMEN) tenta bater de frente com ela, empurrando os limites do humor para o mais longe possível.

Como nas lutas entre PAU e HIMEN, esse último costuma perder, nós resolvemos criar esse “Pequeno Manual do humor ofensivo” para auxiliar o grupo dos humoristas a entender até onde eles podem ir nas suas piadas: Continuar lendo