Paraolimpíadas

Um pouco mais renegada do que sua irmã com todos os braços, as Para-Olimpíadas ocorrem desde 1960. No mesmo país sede e depois das Olimpíadas, o evento é uma amostra de superação humana, com competições envolvendos atletas deficientes, sem braços, pernas, cegos, anões, com problemas mentais e fãs de Crepúsculo.

É inspirador e interessantíssimo assistir essas pessoas fazendo coisas que eu não conseguiria fazer nem se tivesse o dobro de braços que tenho. Nadadores e corredores sem pernas ou atiradores de flecha sem braços. Faltou as competições de tiro ao alvo para portadores de Mal de Parkison, mas isso deve ser incluído nas paraolimpíadas futuras.

Fui então no ExCel Arena em Londres para poder acompanhar as provas, em um dia de competição. Comprei um “day pass” que me dava direito a acompanhar todas as modalidades que estivessem em curso na arena no dia. Comecei então pelo tênis de mesa, simplesmente porque era mais perto da entrada.

Para-Ping-Pong

Oito mesas de ping-pong estavam dispostas no estádio, com partidas ocorrendo simultaneamente. Dividido por categorias, algumas mesas com menos espaço livre eram dedicadas aos competidores em cadeiras de rodas. Quando entrei, um anão coreano disputava contra um holandês que parecia ser albino. Alguns jogos começaram pouco depois, incluindo um jogo muito dinâmico entre um atleta da Suécia e um da Áustria – ambos sem uma das mãos. Perto deles, um chinês com dificuldades de locomação jogava contra um espanhol sem qualquer deficiência aparente – devia estar lá por ser judeu ou algo do tipo. Continuar lendo

O legado Olímpico

No longínquo ano de 2005, concorriam com Londres o direito de sediar as Olimpíadas de 2012 Paris, New York, Moscou e Madrid.

Paris 2012

Paris 2012… perdeu, Monsieur

Não consigo imaginar quão terrível estaria a economia espanhola agora se, além de todos os problemas enfrentando a atual crise, eles ainda tivessem que se preparar para uma Olimpíada. A França, também tentando fugir de uma crise, está em um atual processo de reformulação política e é certamente melhor que politicagem e clima olímpico não se misturem. Os russos provavelmente gastaram todo o dinheiro do orçamento em vodka.

New York é um exemplo à parte. Ao perder o direito de sediar as Olimpíadas, a cidade pôde investir o dinheiro que seria gasto em estrutura de estádio e vila olímpica em coisas mais úteis e que os nova-iorquinos estavam realmente precisando, além de ter realmente cumprido boa parte da revitalização planejada se tivesse sido eleita. E, além de tudo, pôde fazer tudo com calma, tendo projetos de expansão do transporte público em andamento até 2014. Os ganhos para a cidade foram maiores do que se ela tivesse realmente sido escolhida para sediar os jogos – e é nisso que é baseado o título do artigo “How New York City won the Olympics”, de Mitchel Moss (novembro/2011) [link – pdf].

NYC – 2012

Mas Londres deu ao mundo uma olimpíada primorosa. A toda hora parecia que alguma coisa ia dar errado – e tudo beirou a perfeição. A rede de transportes foi impecável, a segurança foi constante e até o clima ajudou. O planejamento foi tão minucioso que deixa uma cidade sem elefantes brancos – grandes áreas foram revitalizadas e a Vila Olímpica foi propositalmente construída numa das regiões outrora mais pobres de Londres, Stratford (a meros quatro quilômetros aqui de casa); primeiro erro brasileiro, que está construindo sua Vila Olímpica na abastada região da Barra da Tijuca. O legado sustentável que as Olimpíadas deixam a Londres é inegável. Continuar lendo

Por que futebol nas olimpíadas é tão chato?

Não que eu não goste de assistir a Seleção Brasileira. Só que, enquanto passa o jogo, eu preferia estar estudando o comportamento das formigas, trabalhando numa repartição pública ou enchendo uma laje.

Certo, eu odeio de assistir jogos da Seleção brasileira. Adoro não ter que trabalhar e poder ficar tomando uma cervejinha com os amigos durante a Copa, por isso fico torcendo para a seleção chegar pelo menos até as semifinais (as finais são de domingo mesmo, então é indiferente pra mim). Nas Olimpíadas, nem isso.

Os jogos mais chatos que eu assisti durante as Olimpíadas foram de futebol. Eu dormi durante Brasil x Bielorússia – algo natural, se eu não estivesse no estádio, em Manchester. Assisti o segundo tempo da final e o meu kindle me impediu de dormir no bar em que eu estava.

Neymar is not impressed

Eu sempre quis saber porque eles não adicionavam o futsal nas Olimpíadas – e, porque não, o futebol de sabão! A politicagem entre FIFA e COI impedem isso.

É muito simples: Quem manda no futebol em em suas categorias derivadas (futsal, futebol de sabão, futebol de rua, carimbada, bobinho, gol-a-gol) é a FIFA. A entidade, para os mais desinformados, têm o seu próprio torneio quatrienal, que aliás, é um sucesso televisivo maior que as Olimpíadas. Tornar o futebol olímpico divertido seria criar um concorrente para si mesma, por isso a FIFA limita que esportistas maiores de 23 anos disputem o campeonato (só são permitidos três por seleção). Como uma copa do mundo feminina não é algo devidamente atraente, não há essa restrição para as garotas, e é por isso que o futebol feminino é mais legal que o masculino nos jogos Olímpicos.

E o futebol de salão? A FIFA libera totalmente e até incentiva que a modalidade seja acrescentada aos jogos. Mas aí é o COI que não quer. O esporte mais popular do mundo com certeza daria uma bela audiência às Olimpíadas se fosse disputado em toda sua plenitude. E é essa a moeda de troca e a disputa entre as duas entidades: Se a FIFA tirar as limitações futebolísticas ao esporte em seu evento, o COI adiciona o futebol de salão como modalidade olímpica.

E, por causa dessa briga, o futebol olímpico masculino vai ficando como evento pra brasileiro ver. A verdade é que só a terra das bananas parece realmente se importar com os jogos do esporte bretão enquanto tanta coisa mais legal está acontecendo. Mesmo que vez ou outra nos brinde com revelações como Mohamed Aboutrika, o jogador sensação de 2012.

Sport Guessing

“Aquele é corredor… só pode ser”; “Olha um grupo de ginástica rítmica do Japão passando ali”; “E mais uma levantadora de peso ali do outro lado, olha!”; “Aquelas dividindo uma salada devem ser do nado sincronizado sueco”…

Sport Guessing foi a minha modalidade favorita nos jogos Olímpicos de Londres. O esporte consiste em andar ali pela região da Vila Olímpica e adivinhar o esporte dos atletas que também estão andando por ali. As dificuldades na popularização da modalidade é evidente: geralmente não há vencedores porque ninguém se dispõem a ir lá perguntar para aquele chinês “você é um especialista em argolas?”

“Olha um competidor de marcha atlética! Ou alguém apertado pra ir no banheiro!

Não se deixe enganar: é uma atividade divertida. Aquele cara correndo só pode ser do atletismo; aquele negão pulando a barreira do metrô faz corrida de obstáculos; uma velha tão puta no metrô é uma treinadora de ginástica sérvia… E toda esportista um pouco mais obesa era considerada uma levantadora de peso, o que fazia do esporte a maior delegação das Olimpíadas, pelas nossas contas.

Foi só depois de identificar o time de basquete da Bulgária que percebemos que os búlgaros não se classificaram no esporte, somente no vôlei. Apesar de não entender direito porque um país manda seu time de basquete para jogar vôlei, eles fizeram um bom trabalho e ficaram em quarto lugar. Continuar lendo

Atletismo para quem tem DDA

Tive a oportunidade de comparecer ao estádio olímpico este sábado para acompanhar, na medida do possível, as provas de atletismo. Como um semi-desconhecedor das modallidades apresentadas, me senti consideravelmente confuso.

Acostumado a ver esse tipo de prova na televisão, preferencialmente enquanto faço alguma outra coisa que soasse mais divertida, me vi completamente perdido. No estádio, tudo acontece ao mesmo tempo; mulheres arremessam discos enquanto os homens dão saltos triplos e eu fico desesperado achando que o pessoal que arremessa peso qualquer hora vai errar o giro e acertar uma das garotas que está correndo os 400 metros na pista. É tudo simultâneo e eu nunca sei o que diabos a torcida está ocasionalmente celebrando – a maioria das vezes era algum feito da Jessica Ennis.

Jessica Ennis

Ennis é o grande nome britânico das olímpiadas. A atleta garantiu no domingo o ouro para os donos da casa no heptatlon, modalidade que eu pude acompanhar algumas etapas enquanto presente no estádio. Além disso pude conferir a vitória da Polônia no arremesso de peso (Tomasz Majewski) e a corrida de 10km que garantiu o ouro para a Etiópia (Tirunesh Dibaba), contrariando minha idéia que os atletas da Etiópia tinham vindo só por causa do lanchinho.

Assistir esse tipo de competição no estádio parecer ser o ideal para treinar meu déficit de atenção, que consegue analisar o pulo de 8m de um brasileiro enquanto vê a lançadora de discos atirando coletes e reparar que a corredora portuguesa está ganhando posições (“é aquela de meias pretas, tá vendo?”).

Talvez, como concluiu Antonio Prata em sua coluna, o melhor mesmo é ver as provas pela televisão. Eu me diverti muitíssimo indo ver pessoalmente e, se encontrasse mais ingressos, faria o possível para ir de novo. Mas as câmeras televisivas são as que vão mostrar a melhor imagem (com replay) daqueles 9 segundos de corrida e vão captar os melhores ângulos da Allison Stokke. Ah… Allison Stokke!

Allison Stokke, SUA LINDA!

 

(em tempo, antes que venham reclamar: eu sei que a Allison não se classificou para Londres 2012. Mas só queria aproveitar a oportunidade de colocar uma foto dela)

Usain Bolt

Como não poderia deixar de ser, a imprensa londrina tirou a segunda-feira para exaltar Usain Bolt e a medalha de ouro mais previsível das Olimpíadas.

Opa… Bolt errado!

O jamaicano venceu os 100m rasos, a prova mais nobre do atletismo, e hoje foi até feriado na jamaica por conta disso (e por causa da independência deles, mas isso é só um detalhe).

É destacável, entre outras coisas, a audiência alcançada pela corrida, considerado um dos maiores eventos esportivos já transmitidos pela BBC. Um dos grande motivos para eu ter uma televisão nesta época olímpica foi por esses 9.63 segundos de programação.

O que mais me chamou atenção nas notícias veiculadas pelos tablóides britânicos foram coisas que passaram desapercebidas pela transmissão. Um indivíduo bêbado, por exemplo, tentou atirar da arquibancada uma garrafa de cerveja no corredor pouco antes de ser dado o tiro de largada – no vídeo da transmissão é possível ver uma garrafa verde quicando atrás dos atletas antes do começo da corrida. O espectador bêbado tomou um ippon da judoca holandesa Edith Bosch antes de ser detido pelos seguranças do estádio olímpico. “I missed the 100m! grrrrrr”, escreveu a lutadora em seu twitter, após contar gloriosamente como ela agrediu um arruaceiro.

Destaque também ficou para a celebração feita por Usain Bolt. E eu não me refiro à suas flechas imaginárias atiradas no nublado céu britânico, mas pelas três atletas suecas que o acompanharam à noite em seu quarto.

Bolt e suas suecas

Bolt ainda vai correr os 200m nestas Olimpíadas – isso se ele ainda tiver fôlego, afinal ele deve ter levado mais de 10 segundos para celebrar com essas garotas…

Ninguém no centro…

Londres se preparou tanto para uma multidão de pessoas invadirem suas pobres ruas de trânsito inglês que um efeito colateral inesperado está presente na cidade.

Por meses antes do início das Olimpíadas, cartazes e anúncios publicitários invadiram a cidade e todas suas estações de metrô alertando ao povo sobre todas as dificuldades que seriam previstas na época olímpica. Recomendaram a quem podia que trabalhassem de casa, evitassem o centro, usassem rotas alternativas de transporte e até – se possível, não era nem pra sair da cama, porque a cidade estaria caótica… A debandada de moradores ingleses era tanta que uma companhia aérea até veiculou um anúncio recomendando que os londrinos não viajassem… Tudo parte do típico catastrofismo britânico.

O povo inglês se mostrou irritantemente obediente e livrou Londres de seu esperado colapso do transporte público: nem a Central Line, linha de underground que liga a Vila Olímpica em Stratford ao centro da cidade está tão congestionada quanto todo mundo previa. E o centro da cidade está surpreendentemente vazio.

Centro de Londres durante as Olimpíadas

Isso gerou um novo problema: os comerciantes do centro estão reclamando da falta de turistas. Um restaurante de Convent Garden chegou a dar uma declaração dizendo que tiveram o final de semana mais vazio de todos os tempos. (link: http://www.standard.co.uk/news/london/westfields-games-boom-brings-west-end-gloom-7994110.html?origin=internalSearch)

Atualmente, os avisos sonoros no metrô de Londres que antes alardeavam ao povo sobre o caos que seria encontrado nesta época foram substituídos por um aviso para que as pessoas evitem a área de Stratford e voltem a freqüentar o centro da cidade. Obediente que são, provavelmente os ingleses vão obedecer. Eu prevejo caos para esta semana. Acho que o justo seria o sistema de som pedir aos habitantes da cidade sentados do lado direito do trem que fiquem em casa e os sentados do lado esquerdo que fossem ao centro. Seria o equilíbrio perfeito.

Vendo esse comportamento britânico, fico imaginando se fosse no Brasil. Se alguém pedisse para evitar o centro da cidade por estar muito cheio, provavelmente o oposto seria feito pelo povo, que iria pra lá só pra ver que muvuca é essa que está acontecendo…

Ninguém entra, ninguém sai

Duas semanas antes do início das Olimpíadas, eu desembarquei no aeroporto de Heathrow, voltando de uma viagem de trabalho. Eram 22h10 quando o avião pousou, mas eu só fui sair do aeroporto depois da meia-noite (um processo que eu costumo levar 15 minutos em viagens pela Europa).

Além de uma longa espera com o avião parado na pista esperando um lugar para estacionar, havia uma enorme fila na UK Border – e olha que eu sou um cidadão europeu; na fila dos pobres mortais era possível ver uma placa dizendo “Tempo de espera estimado: 90 minutos a partir deste ponto” após algumas curvas de mata-burro.

Estimated waiting time: up to 90 minutes

Esse caos era esperado até pela empresa aonde trabalho. As regras para os funcionários alocados em Londres é o corte completo de viagens. Como uma multinacional com forte atuação em toda Europa, sempre foi muito comum viagens internacionais, mas durante o período das Olimpíadas nenhum funcionário entra ou sai de Londres – tanto pelo preço das passagens quanto pelo transtorno logístico que provavelmente seria causado.

Para fugir do caos, muitos londrinhos haviam planejado as férias durante o período olimpíco. E isso até gerou uma campanha muito controversa da British Airways intitulada “Don’t Fly”, pedindo aos ingleses que não viajem e fiquem apoiando o time inglês:

Uma companhia aérea está pedindo para que as pessoas não viajem. Esse é o catastrofismo londrino.

Mohamed Aboutrika

Hoje, durante o jogo Egito x Bielorussia, pode ser a última chance de o povo mundial ver nestas olimpíadas um atleta notável, o grande nome do futebol masculino do ano.

Mohamed Aboutrika (perfil olímpico) é um meia egípcio com mestrado em filosofia. Entre passes acurados, reflexões marxistas, cruzamentos perfeitos (tanto de bolas quanto de vertentes filosofais), Aboutrika é um ídolo. Preocupado simultaneamente com questões humanitárias e com qual jogador está livre perto da grande área, o jogador se envolve em política e já se recusou a receber um salário maior do que um colega de equipe.

Aboutrika, meu amor! Aboutrika!

No último domingo, tive o prazer de ver em campo este fenômeno do futebol mundial. Apesar de nunca ter jogado na época da democracia corinthiana, Aboutrika apresenta grande empatia com Sócrates. Enquanto todos os jogadores querem ouro, Aboutrika quer Platão. Se arrisca a tomar cartão amarelo ao impôr questionamentos paradoxais marxistas a jogadores adversários e desafia o juiz quando este decide marcar uma infração por causa de um colega de equipe ter tocado acidentalmente com o braço na bola: “Futebol é um esporte que se joga com a alma, alma esta que une mão, corpo e pés num único invólucro mortal. Sendo assim, que diferenciação preconceituosa seria essa que pune uma extremidade do corpo e permite que a outra trabalhe livremente?”, proclamou, causando uma paralisante reflexão no estádio e um olhar perdido de um juiz confuso – não confundir com um juiz Confúcio, do futebol dos filósofos (no qual, certamente, Aboutrika teria espaço como principal jogador de qualquer um dos times)…

Ainda tentei puxar a torcida a adaptar a lindíssima canção de Beto Barbosa para “Aboutrika, meu amor, Aboutrika! Aboutrika, meu amor, a minha vida, ôi”, mas a torcida não pareceu se animar na idolatria. Em parte porque, como já disse Vanessa Barbara na coluna dela de 31 de julho na Folha de S. Paulo (http://www.hortifruti.org/2012/07/31/futebol-e-piada/, leiam!), o futebol nas Olimpíadas é incrivelmente chato. A verdade é que eu nunca gostei de assistir jogos da seleção e não consigo torcer direito por eles. O jogo Nova Zelândia x Egito foi então, o ponto alto do meu futebol no domingo, em parte pela onipresença e, porque não dizer, onisciência cultural do camisa cinco do time egípcio, aquele que carinhosamente me refiro como “Bubu”.

Sobre o jogo Brasil x Belarus: Estava tão chato que eu dormi. No estádio.