O assassino da caneta

“E eu fui até a cozinha chorando e Neil disse para mim: ‘O que diabos você tem?’ e eu disse: ‘Bem, eu acabei de matar a pessoa.’”

 A confissão acima caberia muito bem em qualquer julgamento de um assassino frio e calculista. Seria muito apropriada em algum drama que escancara as manchetes dos jornais populares. Alguém mais incauto argumentaria sobre uma legítima defesa, mas a autora da frase agiu por vontade própria contra alguém que não a ameaçava de forma alguma. Ela não se importa, já que poderá ter ao seu lado os melhores advogados, uma vez que estamos falando de uma das mulheres mais ricas do mundo.

A assassina em questão é J.K. Rowling e o defunto referido é Albus Dumbledore, um inocente professor que nunca foi capaz de fazer mal a uma mosca. Nessa entrevista, JK ainda confessou que o crime foi meticulosamente premeditado e que aquilo a chateou profundamente, mas em momento nenhum ela se mostra arrependida.

Quem nunca?

Quem nunca?

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Roteiro da baixa gastronomia – edição África

Um guia com os piores lugares para se comer mal sem gastar muito pelo mundo

Kigali – Ruanda
Refeição para dois
Custo total: 5600 Francos ruandeses (cerca de R$20)

Em algum lugar na Old City de Kigali, próximo à KN144 Street, aonde homens saem com seus cabritos para passear e mulheres carregam com destreza toneladas em suas cabeças, fica este pequeno restaurante caseiro completamente não-turístico e tipicamente africano. O lugar é uma casa miserável, com mesas de madeira e cadeiras de plástico. O forro do teto apresentava diversas infiltrações visíveis e um buraco permitia ver o telhado, com um raio de luz do sol penetrando o ambiente.

Na entrada, numa tentativa de combater a cólera, um barril azul com uma torneirinha está disponível para os clientes lavarem as mãos, despejando a água em um balde – que provavelmente volta ao barril depois.

kigali

Restaurante sem nome de Kigali

Cheguei ao lugar com meu guia e host, Patrick. O menu é inexistente e o prato é aquele que tem no dia e você já deveria se dar por satisfeito por estar comendo. E comendo bem: Eram quatro ou cinco pratos, um com arroz, um com batatas, um com meia costela e pata de frango e outro com outra costela e a asa da ave. Nada de carne de peito para nós. Folhas de cassava completavam a refeição. Para conseguirmos separar a comida em pratos individuais, tivemos que trabalhar numa readequação dos alimentos, jogando as fritas em cima do arroz, espalhando as batatas pelos outros pratos e misturando tudo de forma irremediável. Continuar lendo

Ditadores Africanos

Na escala da insanidade, há uma série de categorização de malucos que podemos ordenar:

  • O normal
  • O levemente insano
  • O pessoal que coloca o arroz por cima do feijão nos self-services
  • O maluco de pedra
  • Eu
  • Eleitores partidários
  • Salvador Dalí
  • Ditadores africanos

Estudando a história da África, é fácil ficar abismado com o nível de insanidade desses ditadores e chefes que comandaram o continente. São personagens tão únicos que é de se duvidar que realmente existiram, mais parecendo terem sido tirados de alguma obra de ficção cômica, de algum autor sarcástico, como Douglas Adams ou Terry Pratchett. Entre esses ditadores, destacam-se:

Mobutu Sese Seko

mobutu

O rapaz na foto, usando um belo chapéu de pele de onça (que, em combinação com os óculos de aro grosso, acabou virando sua marca) e uma roupa colorida é Mobutu Sese Seko, antigo ditador do Zaire. Depois de uma série de golpes de estado, assumiu o poder do Congo em 1965, colocando em exílio o presidente que ele mesmo tinha ajudado a eleger. Continuar lendo

Jornalismo Imersivo

Em 1959, o escritor John Howard Griffin, consultou um dermatologista. Foi-lhe prescrito uma seleção de drogas, cremes dermatológicos e tratamentos para que sua cor de pele fosse alterada. John queria vivenciar na própria pele (literalmente) como era ser negro no sul dos Estados Unidos. Ele passou meses viajando por New Orleans e Mississipi e suas experiências foram descritas no livro “Black Like Me”, lançado em 1961.

Black Like Me, livro de John Howard Griffin

Black Like Me, livro de John Howard Griffin

A dedicação incondicional a uma experiência não é novidade no campo jornalístico-literário. Um dos primeiros ícones desse tipo de gênero aonde o autor se envolve completamente dentro do assunto estudado é Nellie Bly. Em 1887, a autora, usando o pseudônimo de Nellie Brown fingiu-se de louca, foi julgada insana e internada no hospital psiquiátrico Blackwell, em New York. Uma vez lá dentro, a autora parou imediatamente com sua atuação e se comportou da forma mais lúcida e natural possível, mas sem que fosse identificada com jornalista. Foram dez dias dentro do hospício, relatando todos os maltratos sofridos, as péssimas condições que se encontravam os pacientes e histórias fantásticas, de internos aparentemente mais sãos do que eu. O resultado se transformou em um aclamadíssimo artigo entitulado “Ten days in a mad-house” (de leitura altamente recomendável, podendo ser encontrado aqui) e chamou a atenção das autoridades para a forma como New York tratava seus loucos. No ano seguinte, Nellie lançou o artigo Around the world in seventy-two days, aonde ela se dedicou a reproduzir a obra de sucesso de Julio Verne e dar a volta ao mundo em oitenta dias (o ano era 1888). As experiências de Nellie a consagraram e marcaram definitivamente o estilo de jornalismo participativo. Continuar lendo

A incrível geração de mulheres que fica discutindo sobre a incrível geração de mulheres

A geração incrível

A geração incrível

Vivian tem 34 anos. Está solteira ainda e sabe muito bem o porquê: é essa geração de homens que está completamente errada. A culpa não pode ser dela, que é uma mulher independente, tem um emprego de garbo na redação de um jornal daqueles que é distribuído de graça nos semáforos (e o povo resolve as palavras cruzadas e forra o chão do carro com seus artigos). Ela é uma mulher perfeita, que vai em passeata pelo futuro do país e se indigna justamente com todos os problemas sociais. A única coisa que Vivian não sabe é cuidar da casa. Ela pede pizza duas vezes por semana e tem uma empregada diarista que cuida dos afazeres dela. E é justamente por isso que os homens não a querem: Os homens procuram alguém que continue sendo a mãe deles, que lhes costurem as cuecas e façam massagem nas costas.

A culpa é dessa geração de homens, despreparada para um universo feminino tão evoluído. Continuar lendo

Beber é o melhor remédio

Taí um protesto que eu iria!

Taí um protesto que eu iria!

Há muito tempo a medicina já permanece quase unânime em relação aos benefícios que duas taças de vinho diárias podem fazer ao coração. Mas, em defesa das outras biritas, não é só o vinho que pode trazer benefícios à saúde, mas qualquer tipo de álcool. A ciência nas últimas décadas vêm estudando a fundo o efeito das bebidas na saúde humana e os resultados apontam uma vida mais saudável para o pessoal que gosta de entornar um caldo.

No livro “Drop Dead Healthy“, o autor A.J. Jacobs narra sua saga ao tentar se transfomar na pessoa mais saudável do mundo. Ele segue conselhos e pesquisas fortemente embasadas e apresenta dados surpreendentes. O álcool é citado no livro como sendo um “vício saudável”, em uma lista que também englobava chocolates, video-games, sonecas e deixar a cama desarrumada.

Até a Bíblia se mostra a favor do álcool, de acordo com estudo feito por Daniel Whitfield, um enófilo cristão que fez um estudo exaustivo sobre todas as menções alcóolicas bíblicas. São 247 entre o novo e o antigo testamento; dentre elas apenas 40 referências negativas, totalizando 16%. As referências positivas são 145, o equivalente a 59%, e envolvem, entre outras, a abundância de álcool como um sinal da benção de Deus e a ausência dele como um sinal de uma maldição divina. Os 25% restantes são referências neutras. [Fonte: The Year of Living Biblically (A.J.Jacobs)]

Álcool faz bem. Cada vez mais pesquisadores vêm descobrindo isso. É sempre bom destacar que os estudos de benefícios de um goró obedecem uma curva gráfica ligeiramente complexa: O exagero pode ocasionar em alcoolismo e em efeitos não tão positivos à saúde, mas quem bebe com moderação apresenta menor taxa de mortalidade do que os abstêmios.

O conceito de moderação, entretanto, também varia entre os indivíduos e depende da bebida. No caso da cerveja, por exemplo, 600ml diários é uma quantidade que você pode entornar tranquilo. Mais do que isso já varia de pessoa para pessoa – porém, experiências próprias apontam que, quanto mais você beber, melhor ficam suas histórias. Continuar lendo

Roteiro da baixa gastronomia de São Paulo #3

Um guia com os piores lugares para se comer mal sem gastar muito em São Paulo

Quickies
Ladeira Porto Geral, 14
Salgado
Custo total: R$2

Em um espaço de menos de quatro metros quadrados, no topo da ladeira Porto Geral, no centro, fica a menor lanchonete da cidade. Se é que um punhado de máquinas automáticas de salgados podem ser considerados uma lanchonete. O conceito foi trazido a São Paulo pelo empresário Marcus Vinicius de Lima, inspirado em uma rede similar holandesa, que teria feito um investimento de R$8 milhões na idéia. Em geral apenas um funcionário trabalha no interior das máquinas, repondo os salgados.

Mais direto impossível: as moedas são colocadas na máquina – que não dá troco, mas se você quiser, pode trocar seu dinheiro em outra máquina – e você abre a janelinha que tiver o salgado que parecer mais apetitoso ou menos repugnante, depende da sua sorte no momento. As descrições dos salgados se encontram no topo das colunas de janelas, e uma coluna pode ter mais de um tipo diferente de alimento, assim, pode ser um exercício de observação e astúcia escolher o salgado desejado.

Fui direto nas janelas de R$2,00, onde podia escolher entre o Kaasoufle, descrito como um pastel empanado de queijo cremoso ou o Bami, um suposto “Empalhado de talharini, frango e legumes”. Na minha humilde concepção, talharini era um tipo de macarrão, mas eu estava em uma época confusa da minha vida e provavelmente pediria ajuda para os universitários do Show do Milhão se tivesse que responder uma pergunta sobre pratos tipicamente italianos. Qual o problema do Quickies com coxinhas, esfihas de carne ou risoles de queijo? Até os croquetes de carne tinham sabores inusitados como goulash.

Depositei duas moedas de um real na máquina – o equivalente a duas refeições completas no Bom Prato – e, ainda meio confuso com o funcionamento de uma tecnologia culinária tão avançada, fui abrir a janelinha do salgado que parecia maior. A maçaneta estava quente e resistiu ao meu puxão, por isso hesitei. “É só puxar, senhor.”, disse um funcionário que acompanhava minha epopéia a uma certa distância, me deixando ligeiramente acanhado pelo repentino contato humano que não devia fazer parte da experiência.

Peguei o salgado, fechei a janela, cumprimentei o homem com um tímido “obrigado” e segui andando em direção ao Pátio do Colégio, enquanto mordia meu empanado. Eu estava certo: Talharini é um tipo de macarrão. É uma experiência inusitada: é como se eu tivesse pedido um prato para viagem, “mas ao invés de colocar numa marmita, você pode embrulhar ele em um invólucro de empanado?”

Meu salgado de macarrão

Meu salgado de macarrão

Comi o lanche como ele deve ser saboreado: com pressa, olhando para baixo, sem maiores interações com seres humanos, nem sequer olhar nos olhos de outras pessoas. O Quickies é claramente uma rede de fast food para pessoas que preferem comer um salgado requentado de gosto duvidoso do que ter que falar com desconhecidos, característica que surpreendentemente atinge uma boa gama de pessoas que eu conheço e que com certeza tem um público alvo vasto numa cidade como São Paulo. Em defesa da iguaria, o empanado ainda estava crocante e o recheio quente e levemente apimentado, apesar da estranheza inicial do macarrão.

Mas, se hoje ninguém mais estranha um pastel sabor pizza, pode ser uma boa tentativa para os inovadores pasteleiros de feira a criação de sabores como “spaghetti à la puttanesca” ou “penne all’arrabbiata”. Aguardemos.

***

Café Armênia
Rua Pedro Vicente, 177
Hamburguer com suco
Custo total: R$5

A poucos metros da saída norte do metrô Armênia em frente à entrada de um estacionamento, um trailer desponta com seu cardápio exposto em sua fuselagem (onde por falta de manutenção, todos os produtos custam 8,88). Duas cadeiras de plástico ficam em frente a duas grandes lixeiras, o que mostra que a posição da área de alimentação não foi muito bem planejada – ou foi planejada bem demais. Uma placa dizia “Proibida a entrada de homens sem camisa neste recinto”. Em qual recinto, se éramos servidos na rua?

Salgados e sanduíches ficam expostos em vitrines de vidro. Pães de queijo do tamanho de bolinhas de gude aglutinavam-se à direita (sete por R$1,00). Hamburgueres completos já preparados com queijo e salada se empilham não tão convidativamente atrás de um vidro. Optei pelo hambuguer, que parecia a especialidade da casa (R$3,00).

“Você vai querer prensado?”, perguntou a atendente, jovem e simpática. “Pode ser!”, respondi, achando que aquele negócio comprimido seria mais fácil de ser ingerido. Ela então primeiro colocou o lanche no microondas por 30 segundos – somente o suficiente para dar ao alface aquela aparência escura e consistência emborrachada. Depois, remanejou bandejas e equipamentos no apertado trailer para livrar espaço para a prensa, aonde colocou o lanche. “Tá bom assim?”, perguntou depois de um tempo de prensa utilizada. “Pode ser!”, repeti minha resposta, deixando claro que, se estava comendo ali, não tinha mesmo muitos critérios alimentícios.

Para acompanhar, pedi um suco Frutix de laranja com acerola (R$2,00). Ao meu lado, um homem que podia ter entre 40 e 80 anos que comia uma coxinha (R$2,00) e não tinha nenhum dos dentes superiores entre os caninos pediu um pouco do meu suco. Pedi um copo à atendente e servi aproximadamente 1/3 de meu vasilhame ao homem. Ele agradeceu e começou a explicar, em um dialeto de português quase incompreensível, que acabou de chegar do Ceará, não tinha dinheiro e estava ali esperando o cunhado dele buscá-lo, ou alguma coisa nesse estilo.

Peguei o pote de catchup (um pouco doce demais) e maionese (que tinha a consistência de um fluído não-newtoniano) e fui comer apoiado em uma alta mesa de madeira com o logo da cervejaria Ravache, apesar do lugar só vender Skol e Itaipava, enquanto apreciava o atendimento exemplar da moça que elogiava os avanços na educação do que parecia um cliente recorrente (“Muito bem! Pediu até por favor dessa vez!”, dizia ela).

O lanche não era nenhuma especialidade da hamburgueria nacional, mas também não era ruim como uma pizza vegana. Provavelmente eu esperava tão pouco dele que ele acabou me surpreendendo positivamente. O resto do meu péssimo suco avermelhado foi doado ao cearense que tive que abandonar e nunca saberei se ele foi realmente resgatado pelo cunhado.

Café Armênia

Lanchonete completa

+ MAIS +

Outros roteiros:

Roteiro da baixa gastronomia de São Paulo #2
Roteiro da baixa gastronomia de São Paulo #1

Para comer:

Quickies: Ladeira Porto Geral, 14
Café Armênia: Rua Pedro Vicente, 177
Estomazil: Em qualquer farmácia

Se você tem alguma sugestão de lugar ruim e barato, deixe aí nos comentários que ela será levada em conta.

Vida de caroneiro – Parte 2

Leia a primeira parte aqui!

A minha primeira experiência tentando pegar uma carona se deu em Portugal, em 2011. Com a idéia de visitar a cidade de Fátima, fiz o que qualquer turista desavisado faria em meu lugar: peguei um trem até Fátima. O problema é que a estação de trem fica a aproximadamente 20km da dita cidade e perdida no meio do nada (antes de chacotear os lusitanos, lembre-mo-nos que a estação Consolação fica na Paulista e a estação Paulista fica na Consolação).

Fátima. Tá vendo?

Fátima. Tá vendo como é no meio do nada?

Sem dinheiro e sem ânimo, permaneci com meu dedão esticado sob um sol relativamente abusivo na beira da estrada deserta que levava até a estação. Felizmente, não fiquei lá por muito tempo e fui logo levado por um português camarada a Ourém, que não era o destino final, mas ao menos tinham ônibus para completar o trajeto desejado.

A minha maior e melhor experiência de caronas, entretanto, foi (quase) completamente planejada.

Na época que eu morava em Paris, tive a idéia de visitar uma grande amiga em Rennes, a aproximadamente 340km de distância. Dinheiro, como sempre, era um grande problema e, tendo voltado de uma viagem pelo leste europeu aonde conheci uma garota que estava viajando de carona desde a Ucrânia, simplesmente pensei que, se uma alemãzinha adorável consegue viajar de carona na Romênia, eu também devo conseguir na França. Continuar lendo

Vida de caroneiro – Parte 1

Na beira da estrada, com uma mochila nas costas, uma placa na mão e um dedão levantado. Paciência, sorte e um pouco de coragem. A carona é uma arte menosprezada por aqui, mas é reconhecidamente um dos meios mais baratos (e demorados) de se viajar em lugares como Europa, Estados Unidos ou Austrália.

Em países como a Alemanha, ela é tão organizada que existem até serviços que ajudam caroneiros a se encontrar com motoristas (como o Mitfahrgelegenheit – http://www.mitfahrgelegenheit.de/). Em muitos países, porém, a carona é ilegal, o que não quer dizer que ela não exista – aonde há um mochileiro tentando viajar, há um dedo em riste na beira da estrada.

Uma placa na mão, um dedo levantado e paciência...

Uma placa na mão, um dedo levantado e paciência…

Minha primeira experiência com caronas foi inusitadamente do lado do motorista (mas do lado inglês, diga-se de passagem). Durante uma viagem à Nova Zelândia, com minha prima, alugamos um carro e saímos de Christchurch em direção ao belíssimo Lake Tekapo. Logo na saída da cidade, assim que pegamos a estrada, vimos no acostamento dois jovens estilo hippie, cabelos dignamente despenteados, roupas largas e chinelos. Tocavam violão e mantinham a seus pés uma placa indicando o destino: uma cidadezinha que, pelo que podíamos ver no mapa, ficava na região de Ashburton, meio do caminho para nós. Continuar lendo

Roteiro da baixa gastronomia de São Paulo #2

Um guia com os piores lugares para se comer mal sem gastar muito em São Paulo

Tudo isso por um real

Tudo isso por um real

Bom Prato
Rua 25 de março, 166
Refeição completa
Custo total: R$1

Saindo do metrô Sé e descendo a Rangel Pestana encontramos o primeiro indício que estávamos no caminho certo do Bom Prato: um mendigo pedindo um real para o almoço no local. Querendo me enturmar com a clientela local, estendi uma moeda ao rapaz: “Quero ir no Bom Prato também. Posso ir com você?”.

O mendigo prontamente retirou a moeda de meus dedos e disse que precisava ir buscar a patroa dele ali em cima, não sem antes nos indicar o caminho “Fica ali, ó… Esquerda e depois esquerda de novo, na esquina.” e partiu. Sendo dispensado por um mendigo; essa é minha vida.

Eram 11:50 da manhã quando chegamos no salão do Bom Prato. Ainda não havia filas. A casa abre às 11h e o almoço é servido até o término da cota de cada unidade (que varia entre 1200 a 2500 refeições). Desde 2011, as unidades também oferecem café da manhã a R$0,50.

O Governo do Estado subisidia R$3,00 do custo total da refeição, restando ao usuário pagar somente o valor de R$1,00 pelo prato bem servido. Paga-se o valor na entrada, onde recebe-se um cartãozinho que é entregue logo ao lado. Uma pia após a catraca permite que os clientes com um mínimo de asseio lavem as mãos e, posteriormente, seguem para a fila das refeições. Nunca fui preso, mas já comi no bandejão da USP e essa é a comparação mais próxima que eu consigo imaginar para o serviço. Meu prato de porcelana foi inicialmente agredido com uma concha de arroz e uma de feijão simultânea. Seguindo a fila, conchas consideravelmente menores de um bem-temperado frango e berinjela são despejadas por cima. Não há espaço para recusas. Antes que você consiga pensar, a comida é jogada na sua frente. Um pouco de alface picado, uma banana, um copo de plástico de um suco vermelho e um pãozinho meio deformado completam a bandeja.

Arrumamos um lugar no salão onde a movimentação de uma imensa variedade de pessoas de todos os tipos e classes revezavam-se sentando, comendo e saindo. A comida é incrivelmente boa, servida quentinha, melhor que a maioria dos PFs de padarias. A combinação nutritiva é uma das coisas mais saudáveis que eu comi por conta própria no ano. Continuar lendo